TRIPULANTES DESTA MESMA NAVE

segunda-feira, 24 de abril de 2017

TORTURA: “FÍSICA OU PSÍQUICA” (ou O MILAGRE DA CONVERSÃO) - José Nílton Mariano Saraiva


A priori, um esclarecimento: em sendo agnóstico, não acreditamos em ocorrências de milagres ou coisas tais. Assim, permitimo-nos refutar a teoria disseminada por alguns de que em Curitiba, nas masmorras do juiz federal Sérgio Moro, verdadeiros “milagres de conversão” estariam a ocorrer com seus “hóspedes”, já que repentinamente renegam o que fora explicitado antes e assumem o que lhes é determinado pelo juiz. Paradoxalmente, entretanto, acreditamos que o apregoado e difundido “milagre da conversão” pelo menos tem o condão de nos levar a uma reflexão séria e pra lá de assustadora: afinal, na busca de informações consideradas pelo representante do Estado (o juiz) como necessárias, qual a metodologia mais eficiente e eficaz de se torturar um ser humano: a física ou a psíquica ???

Como sabemos, na tortura física vige a brutalidade e morbidez em toda a sua crueza e iniquidade, quando “animais” travestidos de carrascos insensíveis e orientados por superiores psicopatas (vide Luiz Antônio Fleury, do Doi-Codi paulista, no tempo dos milicos), submetem o ser humano ao auge da degradação física, em diferentes gradações do modus operandi, tais quais: despir e pendurar a pessoa no famoso “pau-de-arara” e em seguida arrancar-lhe os dentes à base da porrada, até que se disponha a “abrir o bico”; extrair-lhes as unhas (dos pés e mãos) lentamente e sem anestesia, com alicate; submergi-los em afogamentos forçados, que se estendem ao limite do suportável pelo ser humano; aplicar-lhes choques elétricos nas partes íntimas (mamilos, vagina, ânus, língua, ouvidos e por aí vai, em intervalos diminutos, fazendo-as urinar e defecar involuntariamente; praticar sexo à força, com mulher ou homem, pouco importa, no intuito de desmoralizá-los; fazer uso de um tal telefone, quando a vítima recebe, de surpresa e por trás, violentos safanões nos ouvidos, capaz de fazê-la perder a consciência momentaneamente; e, alfim, interrogatórios que duram dias e dias, sem intervalo, com o revezamento dos inquisidores (mas não da pauta), de forma a que o preso não tenha direito a dormir e finde por assinar qualquer papel que lhe seja posto à frente ou falar o que queiram os juízes. A tais “métodos de convencimento”, foram submetidos alguns brasileiros no tempo de vigência da ditadura militar. Se uns poucos resistiram e NÃO “deduraram” (entre eles a ex-presidenta Dilma Rousseff), boa parte não suportou e “entregou” companheiros de luta. Em tais situações, pois, tínhamos as “delações NÃO premiadas”, onde o corpo certamente ficou marcado indelevelmente ao servir como mero e banal “instrumento de convencimento”.

Já no tocante à tortura psíquica, o método requer um pouco mais de “requinte e sofisticação”, porquanto o padecimento se dá através da deletéria “perturbação mental” do indivíduo. Assim, num primeiro momento e objetivando ofertar ao indigitado a “vantagem” de uma “delação premiada”, mesmo sem nenhuma prova material do suposto crime cometido (mas só por convicção da autoridade competente), conduz-se coercitivamente o suspeito para a cadeia, joga-se no fundo de uma cela, onde permanece incomunicável por dias, até que se disponha a “colaborar espontaneamente”. Não sendo a narrativa “espontânea” do agrado do todo poderoso senhor juiz, temos o imediato retorno do preso à cela, onde terá tempo de sobra para refletir se aceita ou não confirmar a versão da autoridade competente. Como prêmio pela colaboração, mais à frente terá redução substancial de uma suposta pena.

As reflexões são só para lembrar dois casos recentes e emblemáticos: ao ser preso, o empresário-bandido Marcelo Odebrecht, indagado sobre se estaria disposto a colaborar, via “delação premiada”, indignou-se e peremptoriamente afirmou ante as câmaras televisivas não ser “dedo-duro”, que tinha caráter, formação moral e religiosa, que inclusive em casa houvera ensinado os filhos menores a jamais praticar tal ato, e por aí vai. Com o tempo, mofando no fundo de uma cela nada confortável para os seus padrões, deglutindo as “quentinhas” da vida e já condenado a dezoito anos de prisão, eis que esqueceu as convicções de outrora, o ter ou não caráter, moral, religião e o escambau, e não só “botou a boca no trombone”, como autorizou seus homens de confiança a também fazê-lo. E a tal “delação do fim do mundo” está apavorando os políticos corruptos que fazem da bela Brasília uma espécie de refúgio de marginais (agora, se o Marcelo Odebrecht apresentará provas contra todos, de tudo o que disse, aí é uma outra história).

Um outro portento da construção civil, o empresário dono da OAS, Leo Pinheiro, que se dizia “amigo” do ex-presidente Lula da Silva, num primeiro depoimento cometeu a “ousadia” não só de NÃO acusá-lo em momento algum, como até inocentá-lo, já que não praticara qualquer crime; foi o suficiente para que as autoridades competentes desconsiderassem tal documento, ao tempo em que “magnanimamente” resolveram dar-lhe tempo para uma reflexão mais apurada, de modo que, numa próxima oportunidade contemplasse, obrigatoriamente e por cima de pau e pedra, Lula da Silva; para tanto, reverteram a prisão domiciliar que lhe fora concedida, lhe acrescentaram dez anos à pena original e o recambiaram de volta às masmorras de Curitiba. Foi o suficiente e bastante para que Leo Pinheiro contrariando seus advogados, desdissesse tudo o que afirmara no depoimento anterior, agora acusando frontalmente Lula da Silva de tudo o que as autoridades lhe atribuíam (embora ressalvando a não existência de provas). Por não concordarem com o novo posicionamento do cliente, seus advogados resolveram abdicar da causa. Só que este era o álibi para que o juiz de Curitiba, Sérgio Moro, consiga seu “objeto de desejo”: condenar o ex-presidente Lula da Silva e impedir-lhe de candidatar-se em 2018.

Ante situações tão díspares, e adstringindo-se ao tema-título do presente artigo, o questionamento seria: para você, que está aí do outro lado da telinha, qual o tipo de “tortura” mais eficaz e eficiente a fim de que se consiga o tal "milagre da conversão", e que no fundo privilegiam bandidos de alta periculosidade: a física ou a psíquica ???

Enquanto você reflete, lembre-se que Alberto Youssef, Paulo Roberto Costa, Sérgio Machado e Pedro Barusco dentre outros, estão por aí, livres, leves e soltos, farreando e gastando a fortuna obtida através de roubo (devolveram uma ínfima parte) após delatarem antigos companheiros. Ou você acredita que por usarem tornozeleira eletrônica permanecem reclusos e silentes em suas mansões ???

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Post Scriptum:
Eugenio Aragão, ex-ministro da Justiça, sintetiza magistralmente o que expomos acima, quando afirma... “o mal da tortura é que não oferece provas sólidas da verdade, mas apenas provas sólidas da (in)capacidade de resistência do torturado”, ao tempo em que lembra que a tortura não é apenas física, do pau de arara, do choque elétrico, mas também psicológica.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Livro sobre o Cariri será lançado hoje na URCA



O Laboratório de Pesquisa em História Cultural - LAPEHC, do Curso de História da Universidade Regional do Cariri - URCA, promoverá o lançamento do livro "Cariri, Cariris - Outros olhares sobre um lugar incomum". O evento ocorrerá hoje, 19/04, às 19h, no Salão da Terra, localizado no Campus do Pimenta da URCA, em Crato.

O livro tem a colaboração de professores do Curso de História da URCA e de outras universidades, como Durval Muniz, Rosilene Melo, Sônia Meneses (também organizadora do livro), Joaquim dos Santos, Carlos Rafael Dias, Jane Semeão, Roberto Marques, Pryscilla Cordeiro e Edianne Nobre, com prefácio de Titus Riedl.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Exposição Patativa do Assaré prolongada até maio


A Exposição “Patativa do Assaré, de poeta matuto a poeta doutor", que está acontecendo no Campus Pimenta da URCA, em Crato, será prolongada até o dia 06 de maio.

A exposição homenageia o aniversário de 108 anos de nascimento de Patativa e é composta por fotografias, livros, discos, cordéis e reportagens sobre o afamado poeta de Assaré, além da réplica de sua casa, localizada na Serra de Santana, município do Assaré.

O acervo e a curadoria da exposição é do fotógrafo cratense Jackson Bantim, que também é diretor do Memorial da Imagem e do Som do Cariri.

Vale a pena conferir, pela riqueza e originalidade do acervo exposto.

A promoção é da Universidade Regional do Cariri (URCA), através da Pró-Reitoria de Extensão (Proex).

Postado por Carlos Rafael Dias
 

domingo, 2 de abril de 2017

PECADO AMBULANTE - Dr. Demóstenes Ribeiro (Cardiologista)


Aproximava-se o dia do idoso e eu escreveria uma reportagem sobre a terceira idade. Cheguei cedo ao abrigo e ao me entrosar com vários internos três velhinhos não me largaram mais. Falavam da vida e entre eles transparecia grande amizade.

Um deles na infância imitava Joselito e, ao cantar “La Paloma,” também foi chamado de “Pequeno Rouxinol.” Já adulto, sentindo-se um Orlando Silva, se apresentou no show do Mercantil e por pouco não se tornou a voz orgulho do Ceará. No entanto, tudo se transformou e ele perdeu espaço. Restaram-lhe as churrascarias e o apelido de Zé Seresta.

Outro senhor, o Adelino, violão debaixo do braço, perdeu-se no alcoolismo e no difícil caminho da música instrumental. Fumava muito, tinha mania por anúncios fúnebres e ao perceber meu interesse por música surpreendeu-me com o choro número um de Villa-Lobos, logo após a minha chegada.

Um outro, mulato alto de carapinha branca, no abrigo tornou-se o Coronel. Repetidamente, em posição de sentido, ele prestava continência às pessoas e queria tudo em ordem. Era admirador dos militares e muito respeitado. Quando jovem, no Rio de Janeiro, matara mendigos para limpar a cidade e teria sido segurança do Lacerda quando do suicídio de Vargas.
 
E os três destoavam da tristeza geral. O dia passando e histórias se sucedendo ao sabor de lembranças, simpatias e antipatias pessoais. Assim, a velhinha de terço na mão era mais uma viúva que deu a vida pelo marido e filhos. O velho calado e abandonado pela mulher mais nova, herdou uma depressão incurável. E aquela, que fazia tricô e ficou pra tia , no seu delírio, invejava a prima que fugiu com um trapezista de circo e nunca mais voltou.

Alguns sequer sabiam de parentes e não recebiam visitas. A ex-dançarina da TV não se apercebeu do tempo e insistia na saia curta, no batom e no decote, sonhando com um milionário chinês. E o mantra incessante do médico demente: quem fui, quem sou e quem serei... Ali, a principal doença era abandono e solidão.
 
Muitos me cercaram e fiquei pensando... Fez-se, então, um silêncio ensurdecedor quando passou a maca com o lençol branco envolvendo um corpo. Todos entenderam: alguém terminara a viagem feroz, traiçoeira e sem finalidade. Ao violão, Adelino iniciou a “Marcha Fúnebre” e o Coronel, solene, balbuciou “do pó viestes e ao pó retornarás.”
 
Mas, de repente, Esmeralda, a cuidadora boazuda, apagou o cinza. Ela empurrava a cadeira de rodas com a mãe de um deputado. Adelino, brejeiro, mudou rapidamente a música e Zé Seresta – eterno dom-juan – mirou aquela bunda, ajeitou a peruca e atacou, imitando Nelson Gonçalves: “quando ela passa, florindo a calçada, pisando macio ... pecado ambulante!”

(publicado no Diário do Nordeste – pg. 3. 27.7.14)

quinta-feira, 23 de março de 2017

Exposição Patativa do Assaré ocorre no Campus do Pimenta da URCA - por Carlos Rafael

"De poeta matuto a poeta doutor" é o título da exposição que homenageia o aniversário de 108 anos de nascimento do poeta Patativa do Assaré.
Com curadoria e acervo pertencente ao cineasta Jackson Bantim (Bola), a exposição ocorre no Campus do Pimenta da Universidade Regional do Cariri (URCA), em Crato.
Foi aberta na última segunda-feira, dia 20 de março, mas permanecerá  até o dia 12 de abril, franqueada ao público em geral, das 8 às 21 horas, de segunda a sexta.
A exposição consta de fotografias, livros, discos, cordéis e reportagens sobre Patativa, além da réplica da casa do poeta, localizada na Serra de Santana, município do Assaré.
Vale a pena conferir, pela riqueza e originalidade do acervo exposto.
A promoção é da Universidade Regional do Cariri (URCA), através da Pró-Reitoria de Extensão (Proex).
A seguir, cobertura fotográfica feita na noite de abertura.







terça-feira, 21 de março de 2017

RECORDAR É VIVER ???


Aécio Neves após derrota nas urnas:


"Vamos obstruir todos os trabalhos legislativos

 até o país “quebrar” e a Presidenta Dilma ficar

 incapacitada de governar. Sem o Poder

 Legislativo nenhum governo se sustenta!”

segunda-feira, 20 de março de 2017

Falece a arqueóloga Rosiane Limaverde - por Carlos Rafael


Faleceu na manhã de hoje, 20/03, a arqueóloga caririense Rosiane Limaverde, vítima de um câncer de útero, contra o qual vinha lutando há quatro anos.
Rosiane, de 51 anos, deixou uma rica contribuição à cultura caririense, principalmente por ter o sido, ao lado do esposo Alemberg Quindins, fundadora da Fundação Casa Grande, entidade que faz um reconhecido trabalho de inserção socioeducacional com as crianças do município de Nova Olinda.
É uma perda irreparável, mas que deixará um duradouro e relevante legado em prol da cultura regional, de valorização da identidade construída pelos saberes populares.

terça-feira, 14 de março de 2017

QUADRILHA LONGEVA

OPERAÇÃO ABAFA - Bastou o presidente Fernando Henrique Cardoso entregar os ministérios dos Transportes e da Justiça para ELISEU PADILHA e Iris Resende e os peemedebistas fizeram as pazes com o Governo. O Presidente da Câmara, MICHEL TEMER (PMDB-SP), ELISEU e o líder do PMDB na Câmara, GEDDEL VIEIRA LIMA (BA), fecharam neste final de semana a estratégia para abafar o escândalo das denúncias de compra de votos na votação da reeleição” (Jornal O GLOBO, segunda-feira, 19 de maio de 1997 ).

Como se observa, 20 anos atrás a “irmandade” já atuava com desembaraço e desfaçatez (os atores são os mesmos e o modus operandi idem).

domingo, 5 de março de 2017

Hoje diria mil desaforos
Machucaria todos os momentos
Que um dia me fez feliz
Quebraria os copos, os pratos
E todas as mentiras que acreditei
Talvez saísse uns gritos engasgados e uma represa de choro quebrasse
Ainda assim permaneceria
Humanas estátuas carregadas de dureza e desumanidade.

Alexandre Lucas


A cama preenchida de cachos
Ondula desejos
Resta um doce espalhado entre os lençóis
Hora de arrumar a cama
Tomar banho
Vestir a roupa e saculejar um adeus.

Alexandre Lucas


Um poema apertado
Entre o que não se quer dizer
E a pressão de querer se manifestar
feito nó cego
O poema não desata
E se guarda.

Alexandre Lucas



Escreveria em tuas pernas
Um manifesto de prazer
A língua fiel escritora da tua pele
Deixaria em carrossel seus sentidos
Deitado sobre a presença
Transcrevo lembranças.

Alexandre Lucas


Sem cerimônias atravessaria os teus olhares
Entrelaçaria tuas pernas em minha cabeça
Até sentir gemidos trêmulos
Tua respiração descompassada
Não faria nenhuma jura de amor
Guardaria teu corpo nas minhas lembranças
E queimaria todas as promessas imaculadas.

Alexandre Lucas

Os contratos entre os corpos tem prazo
Alguns passados no papel , outros no sagrado e ainda aqueles passados na língua
Duram às vezes uma noite inteira
As vezes uma mexida de nuvens
Outras vezes um tempo definido que não se define
Esse corpo que é meu, até parece que é teu
Mas se for ver
 aqui tem porta
E ai também
Se entra sem permissão
Não é contrato
É invasão.

Alexandre Lucas

Não consigo lembrar o afeto que me contagiava à noite
Devia ser intenso,
Hoje resta, cacos pontiagudos que contam o carinho
E que deixam as noites silenciosas e dolorosas
Como num velório
Em que os risos são contidos
e as ideias embaraçadas
Enterro, a noite
Para que os dias renasçam brilhantes
escaldantes e cheios de amor.

Alexandre Lucas


Com quantos poetas definiu a noite?
A noite é tua
Faz dela o que quiser
E os poetas?
Eles, lógico, não são teus
Podem até definir a tua noite.

Alexandre Lucas


Estava ali na mesa
Entre o pão e a manteiga
Uma xícara de choro
O tempo estava frio
Como as almas áridas
Pensei no ultimo gole
Da Água-ardente
E no sorriso das crianças
Liquidifiquei os pensamentos
Passei na peneira
E bebi em lentidão.

Alexandre Lucas


Só isso
Passe pela outra rua
Essa é calçada de ferida
Aberta
Só quero evitar que a insensiblidade se instale
A gente é um pedacinho de carne viva e uma infinidade de sentimentos
Uma rua machucada
Em que o cano do coração
Estoura em tempos ácidos
E as pedras dão cascudos
Nos caminhos empinados.

Alexandre Lucas

Declaro para os devidos fins e a quem interessar possa
Que todos os dias remendo
Partes de mim
ou ainda completo
Partes que me faltam
Carrego cicatrizes
Que de tão profundas
Atravessam a alma e a epiderme
Aqui reina saudades, lembranças,
Medos e vários punhados de dores,
Hora e outra, (as vezes demora muito tempo )
corto os cabelos
Preparo o caldeirão
E jogo porções de tanta coisa boa
Que sou capaz de voar de tão leve que a alma fica.

Alexandre Lucas


Hoje a saudade veio como chuva
Inundou de lembrança a estrada
Orgulhoso o sol logo veio
Mais um dia árido
Resiste
Entre as flores que continuam a brotar em tempos de chuva e aridez.

Alexandre Lucas


Não sou o  pão da esquina
Que está ali para ser comprado e comido
Ou só comido, como arroz e feijão
Não venha  me passar manteiga
E encher o bucho
E depois  virar de lado
Jogando uns trocados
O pão da esquina fica parado
Para ser bulinado
Enquanto gente
Pinota, dar cambalhotas  e goza
Grita e chora, recua e diz não
Gente, não é pão!

Alexandre Lucas

Surge o  nascimento de braços
Alumiados de esperança
em cada casa sem chaminé
nos sacos vazios
de uma vida inteira
Em cada Jesus sem Nazaré  que já nasce crucificado
Não haverá trenós, nem barrigudos do consumo
Nem ceia farta para um único dia
Quando cada castelo for ocupado,
A  comida deixar de ser   uma preocupação constante  
A felicidade não ter placas de  venda em cada esquina
E  a confraternização  ficar impossibilitada de ser orquestra artificial
Defumando ilusões
Nem o natal capital, nem migalhas de caridade
Quando o povo tiver que mendigar a felicidade,
Em doses homeopáticas
De apatia humanitária.    

Alexandre Lucas

Escreve no meu corpo e guarda segredo
Esquece os jornais
 notícia no meu ouvido
O teu release de prazer
A matéria terá argumentos
E sairá quentinha
eu e você na redação
Escrevendo narrativas
Deliciosas nas páginas da pele
E  leituras reviradas
De afetos e temperos singulares.

Alexandre Lucas

Que todos os molotovs sejam declarações de amores
Espalhadas pela cidade
Estilhaços de fraternidade impregnem nos desejos
Que o caminhar possa ser com as mãos  livres
 para que possamos dançar soltamente
e que a partilha seja como como o ar
se não existir nada brotará.

Alexandre Lucas

Enquanto vou me acordando
Sinto o cheiro quente dos teus seios
Lembro do café feito de gente
Nos  provamos
Entre pernas, mãos e línguas
As únicas canções que escuto
São galopes e uma sequência inumerável  de hum
Debulhados
Já podemos dizer bom dia.

Alexandre Lucas

No meio do caminho tinha uma fita de cetim
Balançando
De todas as palavras pronunciadas
De todos os gemidos professados
De todos os olhares
Diante da fita de cetim
Apenas o silencio do seu balançar.

Alexandre Lucas

Ajoelhou-se sem penitência
Com delicadeza e sem protocolos
Fez o meio transbordar
Escreveu no  seu rosto um poema de prazer.

Alexandre Lucas

Deixe que as línguas sejam maliciosas
Que a boca revire os sentidos
Que os dentes façam percursos tatuados de prazer
Deixe apenas aquilo que quiser
Que deixo aquilo que me for permitido.

Alexandre Lucas

Trafega as tuas mãos sobre meu corpo
A água escorre
Tua boca fresca, teus olhos vivos
O banheiro
Pernas entrelaçadas
O banho de línguas
Uma pausa para um curto-circuito
O chuveiro goteja
Meus olhos respiram
As paredes e os braços se abraçam
Enquanto planejamos o próximo banho

Alexandre Lucas

Sair com o coração amputado, mas sair
Ganhei um livro inteiro de Maiakóvski para tomar com cappuccino
Com todas as quebras e quedas
Que compõe a  sua poesia ácida
Árida,
A sua poesia vida
Veio a massagem
Como curativo da alma
Antes de desmoronar
devore poemas Maiakóvskianos e insulte o vento
Para que ele decomponha
a tristeza em partículas  imensuráveis.

Alexandre Lucas

Não me peça perdão
Depois das flores violadas
Árido  me reinventou na resistência
Como mandacaru bem espetado
Sobrevivo com pouca frescura
O sol tempera
A chuva que se afasta
Aguarde, de tempos em tempos
Brotará lindas e pequenas flores vermelhas num cacho de espinhos
Pegue com cuidado
Ou deixe quieta
Para que elas sobrevivam sem feridas.

Alexandre Lucas

Plenamente nunca sou
Os baralhos na mesa
São cartas curtas de histórias inventadas
Como poemas de açúcar
Tem vida curta
Depois de toneladas  adocicadas de afeto, todas com prazo de validade vencida
Sempre desconfiamos
Plenamente.

Alexandre Lucas

Desconfio do silêncio
Da cidade cinza
Da franquia da vida
Da robotização da fala
Da propriedade privada
Desconfio de cada fio
Do beijo sem suspiro
De sexo sem orgasmo
Do Deus bancário
Do amor de fotografia
Desconfio de mim
Só desconfio mesmo
Por está vivo.

Alexandre Lucas

Lágrimas se tecem num corpo surrado, já é tarde.
As palavras se espremem
Na sensibilidade, o verso sai ferido
A liberdade ainda tem longos passos,
O tempo exige resistência!
Amanhã, o corpo será sussurrado e as lágrimas saíram brancas de felicidade.

Alexandre Lucas

Tuas pernas desenham sexo na minha cabeça
Inevitavelmente,
Mas prefiro as passadas das tuas palavras
Que fazem andança profunda
Nas curvas da minha admiração
O que seria das tuas pernas sem a composição das tuas palavras?
Poderiam elas afinar, engrossar, enrugar e encabelar    
Só não pode você faltar  com a palavra.

Alexandre Lucas

Que o corpo não seja apenas
A selvageria que se quer
Uma válvula para extorquir prazer
Ainda em tempos de posse
A extorsão do gozo é uma liminar do patriarcado
Que o gozo seja mais amplo
que se entrelace entre as conversas ao pé do olhar
e aos sussurros de tremer pescoço
que ele tome banho após o riso
e que sem pressa  ele preencha de delicadeza
o corpo, os seus contextos e a selvageria.

Alexandre Lucas

No encosto da parede
Seguro minhas pernas trêmulas
Enquanto você segura
Ajoelhada e freneticamente inquieta,  meu meio
Na sua  sentença de prazer
Contorço-me
Enquanto me espalho como hidratante no seu rosto
E assim vamos povoando a alma com a carne.

Alexandre Lucas

Miçangas de conto
Contam uma história sucinta
A porta que abriu,  ficou derrubada.
Pronto, era apenas um microconto
O restante cabe na tua imaginação.  

Alexandre Lucas

Deslizo segredos sobre teu corpo
A linguagem da língua,
Botam em erupção a tua pele  
Vulcão de lavas-corpos
Derretem-se
Entre as contorções
Sorridentes do prazer

Alexandre Lucas

Que não falte carambolas,  chocolate e  hortelã
Para estrelar a dança dos desejos
Saculejar a partilha
Da pele friccionada a outra pele
Versos da epiderme
Que venha os molotovs de Feniletilamina
Para florar de tesão os encontros
Nus
E debulhar a sabedoria das trocas.

Alexandre Lucas

A mesa guarda ainda as lembranças do café
Suas pernas cruzadas
Esquenta tuas entranhas e meus pensamentos
Apenas uma blusa leve
Cobre teus seios limão
Seus dedos dedilham
Poemas eróticos
Deitado
Imagino
As  minhas mãos decompondo
O silêncio,
A nudez fazendo carnaval
Num frevo matutino.

Alexandre Lucas

Comer à mesa
Aponta a forma correta
De  falar como se  vai comer
Possivelmente poderia
Comer na mesa,
com a comida espalhada na mesa, comer!
se não fosse negado comer
poderia se comer à mesa e na mesa
Teve um tempo que nem mesa tinha
E o povo comia
Sempre que tinha fome.

Alexandre Lucas

Dói
A ausência do amor
Como o tombo
No escuro do abismo
A espera corroe  o brilho
As lágrimas chicoteiam a esperança
A casa continua sem portas
Esperando que um dia
Você se faça presente
Não tarde, posso não suportar.

Alexandre Lucas

Deixou-me  por alguns instantes sem as pernas,
Deixe-me sempre
Em contorções  e esparramado pela cama
Acorde-me cedinho
sentindo as estrelas e a boca
Lenta e devoradora
Conte-me uma história de luta  pela vida e sorria,
antes de sair
Escreva no espelho do banheiro: bom dia.  

Alexandre Lucas
Não me interessa a poesia que codifica o código
Que faz da junção das palavras
Um cálculo complexo
Que fala para poucos
Nem  a que fala para muitos e nada acrescenta
Gosto mesmo é daquela poesia
Que me deixa de pé
Cheio de tesão
E do poema que em cada verso chama-me para a luta
E daqueles de tão meigos
Fazem
Ventania nos olhos
A poesia pode tudo isso:
Tamanho, métrica e ritmo
Rima,  forma, adereço e enredo
Se  ela não tiver  a palavra que  toque e o verso que afete
Não  me interessa .

Alexandre Lucas


23/1 16:57] Alexandre Lucas: Um dedo que não pede silêncio
Separa nossos lábios que se desejam
Nossas pernas continuam querendo se encaixar
Nossos pescoços se acolhem
Esses nossos olhos brilham
De afeto
O tempo acelera as emoções
A alma lateja de alegria
E fico aqui embebecendo os pensamentos da tua companhia

Alexandre Lucas

Esse poema carregado de brilhos nos olhos
Que faz mar e que se adocica no tempo
que agarra no olhar,
que abana as palavras com frescor
esse  poema vestido de pura nudez
de cabelo assanhado
de toque suave
que entra dançarino
no banquete da alma
Esse poema lindo
Feito brincadeira  de criança que encanta
Poema atrevido,  teima em ser feliz
Não é de Neruda, nem de Drummond, nem Vinicius
É um poema feito   na rede
No balanço  que não termina
No aconchego
Nas lembranças dos beijos
É um poeminha que germina
Com os olhinhos fechados e
Uns sorridos esbugalhados.

Alexandre Lucas

A rede vazia e trago  você aqui com esses olhinhos que me fazem sorvete
Derretido e doce
Ensaio um eu te amo
Cacheado de estrelas verdes
As estrelas verdes existem
E são bordadas de delicadeza
Tem pontas fininhas
que de tão  macias
Nós deitamos para sonhar.

Alexandre Lucas

Eu que tenho um relacionamento amoroso separado
Assinado no papel dos meus olhos
Que entre tantas vírgulas e quase pontos
Cheguei a pensar  que os versos  acordariam  descrentes
Mas eles se fizeram emaranhados de cachos
Com pontas de afetos para todos os lados
E eu que pensei que os versos adormeciam  ou enlouqueciam
E ponto final
Decreto, infinitamente impossível
Declaro, o verso pode ser o que você quiser
até um relacionamento amoroso e separado.

Alexandre Lucas

No banho jorra água e lembranças
A toalha
Nossos corpos afogueados e nossas mãos de cuidado
Esse olhar particular
Que acaricia a intimidade da alma
O espelho que nos fotografa em risos
Sem modéstia
A felicidade germina.

Alexandre Lucas

O tempo frio, a chuva massageia a vontade de sonhar
Escancaro lentamente um som instrumental
Fecho os olhos para escrever  um poema cacheado
Ele vem Afrodite
Dançando como uma folha ao vento
Abro a porta e  deixo os brilhos rodopiarem
Fitas de cetim se cacheiam na ventania dos desejos
E um pássaro anuncia pelos céus a alegria de voar

Alexandre Lucas







Patativa, amigo e companheiro - por Carlos Rafael



Texto: Carlos Rafael Dias
Foto: Emerson Monteiro


Anualmente, o Centro Acadêmico do curso de História da Universidade Regional do Cariri – URCA, promove a Semana de História, com a realização de palestras, mesas redondas e outras atividades de cunho acadêmico-científico que versam sobre temas e questões pertinentes a esta área das ciências humanas. Para mim, é um evento permeado de muita afetividade, pois dele sempre participei, desde o tempo de estudante. Coube a mim, inclusive, relançar a Semana em 1994, quando fui chefe do Departamento de História da URCA.

Há cerca de uns dez anos, fui convidado pelos promotores da Semana para proferir algumas palavras na abertura do evento. Fiquei, então, a pensar no que iria falar naquele solene momento, mais ainda por se tratar também da abertura de uma exposição sobre Patativa do Assaré, figura icônica para todos nós caririenses. Repetiria os velhos e cansados chavões de que Patativa era um gênio literato, cuja obra era estudada nas maiores e melhores universidades do mundo? Ou diria que o poeta tinha sido em vida um porta-voz dos sertanejos desvalidos e injustiçados? Não, não diria aquilo ou isso. Daria um testemunho da minha convivência privilegiada com o homem e o poeta Patativa, pois sempre foi essa a minha relação com ele, mais de amigo e companheiro de militância cultural do que de admirador ou estudioso de sua importante obra. Falaria de Patativa como um participante do Salão de Outubro, mostra anual que realizávamos no antigo Parque Municipal do Crato, cujo ponto alto era o recital que ele fazia, encerrando a noite de sábado. Revelaria, até, o episódio em que Patativa foi instigado pelo poeta “marginal” Miró, vindo de Petrolina para participar do Salão de Outubro e que não se conformou com o monopólio de palco exercido por Patativa, que se alongava, como de costume, no seu recital. Miró também queria recitar e reclamou, com plenos pulmões, daquele “monopólio”. Patativa ouviu o protesto e fez um verso de improviso, convidando Miró para dividir o palco com ele. Miró atendeu ao convite e os que estavam no Parque naquela noite tiveram o privilégio de ouvir um recital que uniu duas gerações de poetas e dois gêneros de poesia, aparentemente díspares. Foi mais uma das inúmeras lições de humildade do poeta maior. Contaria, ainda, como Patativa fazia questão de colaborar com o nosso jornalzinho Folha de Piqui, nos dando a honra de publicar versos inéditos de sua lavra. Diria, enfim, de nossas frequentes visitas à casa de Patativa na cidade de Assaré, ali pertinho da Igreja Matriz, onde passávamos horas inteiras conversando e ouvindo-o recitar.

Foi o que fiz, em um ato que mais do que uma homenagem à Patativa pela sua antológica obra poética, foi um grato reconhecimento da sua importância em nossas vidas,

Patativa, além de um poeta fenomenal, um dos grandes da literatura universal, foi um homem íntegro, humilde, solidário, generoso, amigo e, em suma, um ser admirável. Portanto, sempre será um inspirador exemplo de vida pela sua profunda e honesta forma de viver.

Avis rara. Ave, poeta!

quinta-feira, 2 de março de 2017

ACONTECEU EM FEVEREIRO - Dr. Demóstenes Ribeiro (*)

Aconteceu em fevereiro. O homem, cinza e sozinho, vagava pelo shopping quando começou a algazarra. Da porta da livraria, ele observou o tumulto. Era um rolezinho e o pânico se instalara: o novo-rico reclamou zangado; a madame lipoaspirada escondeu as jóias; a patricinha empalideceu e os lojistas apavorados fecharam as portas.
Enquanto os seguranças assumiam posição de combate, moças e rapazes se divertiam desafiando aquele espaço de exclusão e afirmando presença no mundo. Simpático ao movimento social, meu amigo assistia a manifestação com naturalidade, quando uma jovem irrompeu luminosa e se dirigiu a ele.
A moça tinha cabelo curto e olhos negros. Usava tênis, calça jeans e camiseta realçando o busto. Como se de muito o conhecesse, beijou-lhe a face, disse volta pra mim e retornou à turba. Atordoado, ele a perdeu de vista e se integrou à confusão.
Daí em diante, ficou desassossegado e não mais conseguiu dormir. Esteve presente no protesto contra a construção do aquário e a destruição da praça Portugal. Tudo era um descalabro e ele talvez a reencontrasse. No caos, uma black bloc lhe acenou de longe, mas o boné e o rosto encoberto impediram a identificação. Então, desde o rolezinho, o meu amigo passou a viver outro mundo e cancelou o baile da saudade: nenhuma menina iria curtir essa diversão outonal!
Adeus vida de monge, vestiu uma camisa listrada e saiu por aí. Andou por todos os bares. Na praia de Iracema era pré-carnaval. Obstinado, atravessou o beijo gay e o beijo lésbico. Foi em busca do desfile e se meteu no bloco da cachorra. Não viu a moça e se sentiu um peixe fora d’agua: era mais um coroa ridículo no meio dessa multidão.
Exausto, voltou pra casa e tomou um uísque duplo. Mergulhou na saudade e lembrou aquela canção do Sinatra: “acho que nos encontramos antes, sua roupa é a mesma e o mesmo é seu sorriso, a primeira vez parece acontecer de novo, mas não consigo lembrar “Where or When...” Lembrança de uma paixão arrebatadora e que nunca foi correspondida.
Hoje, ele é outra pessoa. Mil vezes escuta essa música, mil vezes assiste “Em algum lugar do passado” e a toda hora repete que ainda encontrará a moça de cabelo curto, olhos negros e camiseta realçando o busto. Quem sabe, numa sessão espírita, talvez em terapia de vidas passadas ou antes de um internamento e eletrochoque em algum hospital mental.
Passou o carnaval, chove lá fora e o meu amigo desapareceu. Mas, do seu drama e delírio, restaram muita inveja e compaixão. 
(*) Dr. Demóstenes Ribeiro (Cardiologista)




segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

EUGÊNIO ARAGÃO

Temer e a pouca vergonha de nossos tempos

Por Eugênio Aragão*


As frações de informação tornadas públicas na entrevista do advogado José Yunes, insistentemente apresentado pelos esbulhadores do Palácio do Planalto como desconhecido de Michel Temer, embrulham o estômago, causam ânsia de vômito em qualquer pessoa normal, medianamente decente.

Conclui-se que Temer e sua cambada prepararam a traição à Presidenta Dilma Vana Rousseff bem antes das eleições de 2014. A aliança entre o hoje sedizente presidente e o correntista suíço Eduardo Cunha existia já em maio daquele ano, quando o primeiro recebeu no Palácio do Jaburu, na companhia cúmplice de Eliseu Padilha, o Sr. Marcelo Odebrecht, para solicitar-lhe a módica quantia de 10 milhões de reais. Não para financiar as eleições presidenciais, mas, ao menos em parte, para garantir o voto de 140 parlamentares, que dariam a Eduardo Cunha a presidência da Câmara dos Deputados, passo imprescindível na rota da conspiração para derrubar Dilma.

Temer armou cedo o golpe que lhe daria o que nunca obteria em uma disputa democrática: o mandato de Presidente da República. Definitivamente, esse sujeitinho não foi feito para a democracia. É um gnomo feio, incapaz de encantar multidões, sem ideias, sem concepções, sem voto, mas com elevada dose de inveja e vaidade. Para tomar a si o que não é seu, age à sorrelfa, à imagem e semelhança de Smeágol, o destroncado monstrengo do épico "O Senhor dos Anéis".


Muito ainda saberemos sobre o mais vergonhoso episódio da história republicana brasileira, protagonizado por jagunços da política, gente sem caráter e vergonha na cara, que só conseguiu seu intento porque a sociedade estava debilitada, polarizada no ódio plantado pela mídia comercial e reverberado com afinco nas redes sociais, com a inestimável mãozinha de carreiras da elite do serviço público.

O resultado está aí: o fim de um projeto nacional e soberano de desenvolvimento sustentável e inclusivo. A mais profunda crise econômica que o país já experimentou. A desconstrução do pouco de solidariedade que nosso Estado já prestou aos mais necessitados. A troca do interesse da maioria pela mesquinhez gananciosa e ambiciosa da minoria que, "em nome do PIB" ou "do mercado", se deu o direito de rasgar os votos de 54 milhões de brasileiras e brasileiros. Rasgaram-nos pela fraude e pelo corrompimento das instituições, com o único escopo de liquidar os ativos nacionais e fazer dinheiro rápido e farto, como na privatização de FHC. Dinheiro que o cidadão nunca verá.

É assim que se despedaça e trucida a democracia: dando o poder a quem perdeu as eleições, garantindo aos derrotados uma fatia gigantesca do governo usurpado e até a nomeação de um dos seus para o STF, para assegurar vida mansa a quem tem dívidas com a justiça. A piscadela de Alexandre de Moraes a Edison Lobão, na CCJ, diz tudo.

Assistiremos a tudo isso sem nenhum sentimento de pudor?

A essa altura dos acontecimentos, o STF e a PGR só podem insistir na tese da "regularidade formal" do impedimento da Presidenta Dilma Roussef com a descarada hipocrisia definida por Voltaire como "cortesia dos covardes".

Caiu o véu da mentira. Não há mais como negar: o golpe foi comprado e a compra negociada cedinho, ainda no primeiro mandato de Dilma. O golpe foi dado com uma facada nas costas, desferida por quem deveria portar-se com discreta lealdade diante da companheira de chapa. O Judas revelado está.

E os guardiões da Constituição? Lavarão as mãos como Pilatos - ou tomarão vergonha na cara?
 

*Eugênio Aragão é sub-procurador-geral da República e foi ministro no governo de Dilma antes do golpe.

Pachelly canta parceria com Geraldo Urano na TV

Recentemente, o cantor e compositor cratense Pachelly Jamacaru, que despontou na música caririense no celebrado Festival Regional da Canção, nos anos 1970, - foi o entrevistado no programa Pelo Cariri (Café com Tapioca), da TV Verdes Mares Cariri. Quando foi solicitado pelo entrevistador, Rodrigo Vargas, para cantar uma canção que poderia representar o conjunto de sua obra (por sinal, uma obra por demais produtiva, com cerca de 300 composições), Pachelly, mesmo sem citar o autor da letra, cantou A cor da alegria, música sua em parceria com Geraldo Urano, que integra o seu primeiro disco, Balaios da vida, de 1995.

Confira:
http://g1.globo.com/ceara/pelo-cariri/videos/t/todos-os-videos/v/pelo-cariri-entrevista-pachelly-jamacaru-no-cafe-com-tapioca/5007944/

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Geraldo Urano cantado pela nova geração: Aquiles Salles

Guitarrista, cantor e compositor caririense, Aquiles Salles desenvolve diversos projetos musicais que vão do trabalho autoral ao de eclético intérprete.

Há dez anos atua no cenário musical independente, participando de bandas como Papagaio do Futuro, Nacacunda, Nostravamus Roots Reggae e mais recentemente Al Capone Tá é Bêbo, que teve aceitação muito significativa na região do Cariri.

Um dos seus mais recentes espetáculos, intitulado "Cariri Autoral - Nascentes da Contracultura"  inclui, além de composições do próprio artista, releitura de composições de Abidoral Jamacaru e parcerias com o lendário poeta Geraldo Urano, ícone da contracultura na região, que além de alguns poemas recitados, tem sua poesia musicada pelo artista na canção “Casa dos Loucos”.O poeta cratense é homenageado também através de novas versões das músicas de outros compositores do Cariri cearense como “A Mulher da Rua do Poeta” de Pachelly Jamacaru e “Leia Na Minha Camisa” de Luiz Carlos Salatiel (ambas em parceria com Urano).

CONFIRA:

https://soundcloud.com/aquiles-salles/multicolor-aquiles-salles-poesias-de-introducao-geraldo-urano

https://soundcloud.com/aquiles-salles/a-mulher-da-rua-do-poeta-geraldo-urano-pachelly-jamacaru-e-aquiles-salles

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Geraldo Urano na revista Cariri

O site da revista Cariri republicou o artigo de autoria do médico e escritor José Flávio Vieira, intitulado “Sou um sapo que engoliu uma estrela”, que presta uma homenagem ao poeta Geraldo Urano. O artigo foi originalmente publicado em uma rede social da Internet no dia do falecimento do poeta.

Também, cita e linka o artigo de autoria do historiador Carlos Rafael Dias que "conta um pouco da vida de Geraldo, cita algumas de suas poesias e analisa a importância do poeta para a história e as artes do Crato", publicado no Blog do Crato.

Ainda, publicou um vídeo onde Geraldo Urano e o cantor e compositor cratense Luís Carlos Salatiel interpretam uma parceria musical dos dois.

Confira: http://caririrevista.com.br/sou-um-sapo-que-engoliu-uma-estrela/

Geraldo Urano – por Olival Honor de Brito

Os poetas não morrem. Atendendo ao seu chamamento, emudecem e se transferem ao Olimpo, a morada bendita dos Deuses e das Musas, para o convívio eterno da felicidade, nos braços abençoados da Poesia. Foi assim com Geraldo Urano, o genial Menestrel do Parque Municipal. Aos 63 anos de idade, achava ter ainda muitos versos a decantar. Por isso para seu cunhado, mestre dos pincéis e das tintas, seu último poema, rogando: NÃO ME DEIXEM MORRER! (Esquecido ele próprio de sua condição de IMORTAL POETA DO CRATO).
Foi ali que o conheci, no romântico bosque onde viveu muitos anos. A ele, à sua mãe, Dona Erice, de quem Geraldo herdou a vocação, às suas cinco irmãs, das quais me tornei amigo, apresentado por uma das muitas musas daquele logradouro famoso, palco glorioso onde uma mocidade vibrante e inteligente, viveu com ele as artes cênicas, a pintura, a música e a poesia, no doce encanto de uma juventude idealista, agora imortalizada por Geraldo Urano.

Crato, 12.02.2017

Olival Honor de Brito

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Geraldo Urano homenageado em praça pública

Programa Rapadura Culturarte presta tributo ao poeta-maior de "Craterdã"

Fotos: Carlos Rafael Dias

O programa  Rapadura Culturarte, promovido e apresentado pelo professor Jorge Carvalho, prestou uma singela homenagem ao poeta Geraldo Urano, falecido no último dia 5 de fevereiro.
O evento, ocorrido na manhã deste sábado, 18, na praça Siqueira Campos, centro do Crato, foi prestigiado por um significativo público.
Com a presença de familiares do poeta, diversos artistas celebraram, com música e poesia, a obra e a vida  de Geraldo Urano, conforme se vê pelas fotos abaixo:

 "Varal" com imagens de várias fases da vida do poeta

Prof. Jorge Carvalho, apresentador do Rapadura Culturarte

De poeta para poeta (1): Olival Honor ler crônica para Geraldo

João do Crato e Abidoral Jamacaru na órbita uraniana

  João do Crato canta Urano: do regional ao universal

 De poeta para poeta (2): Lupeu Lacerda recita Geraldo Urano

 João Paulo (violão): o sobrinho-parceiro

 Familiares e amigos de Geraldo: Heron Aquino (cunhado), Ana, Fátima e Claudinha (irmãs), Márcia Figueiredo e Roberto Jamacaru (amigos de infância)
 Mais amigos: Jorge Carvalho, Carlos Rafael, Lupeu Lacerda e Jô Garcia

Márcia Figueiredo, Olival Honor, Abidoral Jamacaru, Victor e Roberto Jamacaru

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Geraldo queria um grande amor



Ribamar Junior

Anoitece em Craterdam e Geraldo deixou a colher cair no prato de estrelas. Rezou uma Ave-Maria ardente para Janis Joplin em novembro e partiu. Colheu sabonete jeans e Coca-Cola na terra Virgem Constelaçante e abriu o ferrolho do abismo. O dia 5 de fevereiro antecedeu o carnaval da rota de Urano e abriu caminho pelas gotas de leite do peito da Via-Láctea.

Conheci Urano por versos, papéis, fotografias e curtos vídeos de viagens do poeta. Conheci Geraldo pelo o que ele queria que eu conhecesse dele. Não olhei nos seus olhos ou muito menos apertei sua mão, ou disse o quanto gostava dos seus versos, ele gostava disso. O ano era 2013 e eu, ao lado das meninas do Estúdio Caravelas, Raquel Arraes, Fernanda Loss e Constance Pinheiro, participaram da produção da exposição Estação Urano na programação do 7º Festival Rock Cordel do Centro Cultural Banco do Nordeste de Juazeiro do Norte. O evento Uma Noite em Craterdam abriu horizontes para dentro do poeta que escreveu O Amor é uma Cãibra.

Eu vi Urano pela primeira vez cruzando o céu, de olhos fechados. A madrugada do dia 6, na sala 2 de velório, quatro pessoas velavam o corpo de Geraldo. O seu sobrinho, com os olhos fundos, também de poeta me recitou alguns versos ainda inéditos e disse que as últimas palavras de Geraldo, na cadeira de rodas do hospital, foi: “Me dê uma Coca-Cola”.

O refrigerante de cola era uma das bebidas preferidas de Geraldo Efe. O sobrinho, que não perguntei o nome, disse que nos últimos dias ele sentia falta de carinhos. Faltava que queria casar e com a primeira mulher que aparecesse. Geraldo queria ter um grande amor. Agora, ele esculpe a Era de Aquário, e apesar de ter ido para Veneza, onde morou, achou Deus e casou pela segunda vez, Urano queria um amor. Urano agora é azul. Não só fala de Nova Olinda como de Nova Orleans, fala do Cariri e entra para história da literatura de uma Crato cósmica.

Fonte: http://revistacharm.com.br/geraldo-queria-um-grande-amor/

Rapadura Culturart homenageará o poeta Geraldo Urano - por Carlos Rafael


O programa Rapadura Culturart, apresentado por Jorge Carvalho, prestará uma homenagem ao poeta cratense Geraldo Urano, falecido no último dia 5 de fevereiro. Será neste sábado, dia 18, a partir das 8:30 Horas, na praça Siqueira Campos, centro do Crato.
A homenagem contará com a presença de amigos e familiares de Geraldo Urano, com recital de poesias e canções interpretadas por Abidoral Jamacaru, Luís Carlos Salatiel, Carlos Rafael, Lupeu Lacerda e Wilson Bernardo, dentre outros. Na ocasião, serão sorteados exemplares do último livro de Geraldo Urano, "O ferrolho do abismo", que reúne grande parte de sua produção poética, incluindo os livros "Vaga-Lumes" e "O belo e a fera", lançados originalmente na década de 1980.
Além do tributo a Geraldo Urano, o programa Rapadura Culturart trará uma mostra de fotografias e letras de marchinhas de carnavais antigos do Crato e do Brasil, além da presença da Banda de Música do Crato, que executará um repertório carnavalesco, marcando o primeiro grito do Carnaval da Saudade, baile tradicional que será realizado na noite deste sábado no Crato Tênis Clube.

"JUIZ DE MERDA" - José Nílton Mariano Saraiva

Muito já se disse, e se comentou, sobre a “parcialidade” (ou, em português claro e cristalino, a desonestidade) de vários dos ministros que integram a nossa Corte Maior (Supremo Tribunal Federal), useiros e corriqueiros em tentar esconder tão requintado “predicado” através de um linguajar/texto rebuscado e prolixo, repleto de citações greco-romanas, inacessíveis ao mortal comum.

Fato é que, após ascenderem àquela egrégia corte por indicação de políticos corruptos e desonestos, não têm nenhum escrúpulo em saírem ávidos à procura de “brechas” em nossas leis e códigos (sempre “acháveis” pelos que conhecem os “caminhos das pedras”), e que lhes permitam atuarem desabridamente em favor dos interesses do “padrinho”, pouco se lixando para as esdrúxulas decisões que tomam; inclusive, até parecem muito se divertir com a dificuldade da “massa ignara” em aceitá-las, passivamente e sem contestação.

O emblemático de tal postura corrupta e mafiosa deu-se agora (de novo, outra vez, novamente) quando o tal “decano” (que babaquice) do STF, Celso de Melo (indicado pelo ex-presidente Sarney), contrariando até uma anterior decisão do falastrão ministro Gilmar Mendes (no caso Lula da Silva), resolveu que o bandido Moreira Franco (citado 43 vezes numa única delação da operação Lava Jato) assuma, sim, uma Secretaria Especial criada pelo golpista sem povo e sem voto que está Presidente da República (Michel Temer), com o explícito objetivo de blindá-lo com o tal “foro privilegiado”, literalmente impedido-o de cair nas garras do onipresente juiz de Curitiba.

Para se entender a falta de caráter e/ou desonestidade do tal “decano” (Celso de Melo), abaixo a narrativa do ex-Ministro da Justiça do governo Sarney, Saulo Ramos, no livro de sua autoria “Código da Vida” (Editora Planeta, 2007):

Quando José Sarney decidiu candidatar-se a senador pelo Amapá, o caso foi parar no STF, porque os adversários resolveram impugnar a candidatura. Celso de Mello votou pela impugnação, mas depois telefonou ao seu padrinho, Saulo Ramos, para explicar-se.
Doutor Saulo, o senhor deve ter estranhado o meu voto no caso do presidente.
Claro! O que deu em você?
É que a Folha de S.Paulo, na véspera da votação, noticiou a afirmação de que o presidente Sarney tinha os votos certos dos ministros e citou meu nome como um deles. Quando chegou minha vez de votar, o presidente já estava vitorioso pelo número de votos a seu favor. Não precisava mais do meu. Votei contra para desmentir a Folha de S.Paulo. Mas fique tranquilo. Se meu voto fosse decisivo, eu teria votado a favor do presidente.
Espere um pouco. Deixe-me ver se compreendi bem. Você votou contra o Sarney porque a Folha de S.Paulo noticiou que você votaria a favor?
Sim.
E se o Sarney já não houvesse ganhado, quando chegou sua vez de votar, você, nesse caso, votaria a favor dele?
Exatamente. O senhor entendeu?
Entendi. Entendi que você é um JUIZ DE MERDA”.

*****************

E aí, precisa explicar ou quer que desenhe ???

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

"MOTEL FLUTUANTE" - José Nílton Mariano Saraiva

Na inóspita Brasília, um exótico e confortável “motel flutuante”, de propriedade de um dos Deputados da base do golpista que está Presidente da República (Michel Temer), foi o ambiente escolhido para que o indicado pelo próprio para o Supremo Tribunal Federal, o “brucutu” Alexandre Moraes, se reunisse com “íntegros” Senadores da República (citados nas delações premiadas) a fim de, antecipadamente, “ensaiarem” o script de como será a tal sabatina a que será submetido no plenário do covil de corruptos onde têm assento (o Senado Federal), visando sua aprovação para compor aquela corte. Se as “digníssimas profissionais” (prostitutas de luxo) que corriqueiramente frequentam tais ambientes estavam ou não presentes, pouco importa; o que se sabe é que o “scott” rolou solto.

Se, como todos sabemos, o Supremo Tribunal Federal comprovadamente contribuiu para o golpe que derrubou a Presidenta Dilma Rousseff, primeiro ao segurar por cinco meses o pedido de afastamento do marginal que estão presidia a Câmara dos Deputados (Eduardo Cunha) permitindo-o arquitetar e levar à votação o fraudulento processo de impeachment e, posteriormente, ao negar-se a analisar o “mérito” do referido, adstringindo-se a aprovar o seu “rito”, o que esperar então daquela Corte, agora que temos a perspectiva de ter um Alexandre Moraes lá efetivado com o objetivo primeiro e único de barrar qualquer tentativa de enxotar da vida pública os corruptos que pululam no Poder Executivo, à frente Michel Temer e sua gangue, de par com uma cambada de ladrões que fez do Legislativo um antro de marginais ???

Fato é que, sob a égide de um usurpador sem moral e sem voto (Michel Temer), temos no “motel flutuante” de Brasília o retrato emblemático da depravação que vige hoje na capital federal, quando um notório plagiador de obras de terceiros, e que demonstrou despreparo no exercício da nobre função de Ministro da Justiça (que lhe caiu no colo via indicação presidencial), exercita a asquerosa atividade de “beijar a mão” de notórios bandidos, a fim de garantir um polpudo salário vitalício.

Quando se pensa que meses atrás o Brasil se impunha e gozava de respeito ante o mundo em razão de um projeto governamental do qual o povo era partícipe ativo, e que agora vê desmoronar por obra e graça da quadrilha que se instalou no Planalto, só nos resta a admissibilidade que, definitivamente, temos de volta o velho “complexo de vira lata”. 

Lamentável.

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Sete dias sem Geraldo Urano - Por Carlos Rafael


Fazem sete dias (número emblemático) que Geraldo Urano deixou de orbitar em volta desta terra. Hoje rezamos pela sua alma eterna e celebramos seu retorno ao Supremo.

Geraldo Urano agora é uma estrela no céu


Texto: Carlos Rafael Dias
Foto: Pachelly Jamacaru

Triste dia para a cultura caririense. O poeta Geraldo Urano faleceu neste domingo, 5 de fevereiro, vítima de de uma parada cardiorrespiratória em decorrência de problemas no pulmão.

 Geraldo Urano nasceu em Crato, no dia 10 de junho de 1953. Na década de 1970 participou dos Festivais Regionais da Canção, onde se celebrizou pelas suas performances vanguardistas, rompendo com o padrão tradicional de participação nesse tipo de evento. Atuou também no grupo de arte Por exemplo, formado por “jovens da pequena classe urbana local” (CARIRY, 2010, p. 107) que desenvolvia atividades artísticas e culturais. O grupo publicava uma revista mimeografada com textos literários e desenhos, onde Geraldo Urano estreou como poeta.

Fermentada no bojo do fenômeno que ficou conhecido Geração Mimeógrafo[1], a produção de Geraldo, apesar de intensa, teve publicação escassa. Foram apenas dois livros solos[2], um em parceria[3], um livro que reuniu pretensamente suas “poesias completas”[4], participação em uma antologia[5], poemas e textos publicados em jornais, revistas e fanzines[6] e um longo poema publicado no formato de folheto de cordel[7], além de letras de música ou poemas musicados em parceria com compositores caririenses e gravados em disco[8].

Nas suas características mais marcantes, como a liberdade, a solidariedade, a universalidade e, ao mesmo tempo, a reverência para com as leis naturais e a irreverência para com as leis sociais, é de Rosemberg Cariry, companheiro nos movimentos artísticos caririenses nas décadas de 1970 e 1980, uma definição aproximada da poesia de Geraldo Urano:

a partir do cariri, terra marcada pelas unhas da história, a poética de geraldo urano criou asas, rompeu cercas, ganhou o mundo, ensaiou o seu projeto de universalidade. [...] na beleza dos seus versos estão os países, as cores dos povos, a semeadura do sonho, a busca da paz, a canção de amor. a poesia de geraldo não tem fronteiras, fala do mundo como quem fala do quintal da sua casa e do quintal da sua casa como quem fala do mundo. em tudo uma marca inconfundível: o verso novo e inovador, a musicalidade das palavras que se entrelaçam como trepadeiras que escalam muros e desabrocham a flor nos cabelos das ruas; a ironia cortante que desaloja a ferrugem; a críticas audaz aos inimigos da vida; o imenso amor que o liga à natureza. sobretudo, seu canto de esperança no homem, sua fé na liberdade e no advento de uma sociedade de coletiva felicidade (CARIRY, 2015, pp. 14-15).

Do Cariri para o mundo. Uma frase que bem poderia ser uma paráfrase do conselho de autoria atribuída ao escritor russo Leon Tolstói - “se queres ser universal, canta primeiro a tua aldeia”. No entanto, confirmando uma característica que é marcante na poética geraldiana - a sua desvinculação a rótulos e a esquemas pré-definidos, Geraldo subverteu essa máxima. Apesar de ter seguido à risca a filosofia dos poetas beats e ter se tornado um andarilho por um período de sua juventude[9], praticamente viveu na cidade em que nasceu. Foi do regional ao universal e voltou ao regional sem nunca, a rigor, ficar preso a fronteiras, geográficas ou imaginária, ou mesmo a convenções de territórios livres. Seu endereço, portanto, nunca foi geográfico, com CEP ou comprovante de residência, conforme ele revelou em um poema da sua safra inicial:

me procure em seu coração
esse
é o endereço mais próximo
e onde
você pode me encontrar
na sua cidade eu apenas nasci
e o mundo
tem muitas cidades
como o céu muitas estrelas
e como o vento estou sempre
em movimento
posso estar agora
no planalto central e logo mais
em detroit
por isso me procure em seu coração
onde é certo você me encontrar
(URANO, 1984, p. 49)

Foi deste seu cordial endereço que Geraldo alçou voos imaginários para cantar o mundo e idealizar sua própria Pasárgada, que ele batizou de Craterdã. Afinal, diabeísso?   Uma possível resposta que começa interrogando: “Craterdã? (assim mesmo, com til), Cratuniversal. Crato cósmica, interestelar, intergaláctica, gêmea de Amsterdã ou Amsterdam, semente plantada e fosforescendo no seio da Mãe Gaya” (REJANE, 2015, p. 7). O neologismo apareceu, pela primeira vez, como título de um poema em prosa[10], mas que acabou virando uma espécie de representação imaginária que a “rapaziada” underground acabou adotando e que foi resgatada recentemente, conforme a poeta Cláudia Rejane registrou no prefácio de O ferrolho do abismo:

Por esses mesmos tempos, andavam pelo vale Raquel Arrais, Constance Pinheiro e Fernanda Loss, nascidas na década de 80, quando Craterdã fervilhava ao som da nossa contracultura, com guitarra elétrica, bateria, pífano e zabumba. As moças entraram em contato com o assombro, a agonia, o delírio e o encanto das uraniversalidades e, reunidas num estúdio sugestivamente chamado de Caravelas, embarcaram na viagem interestelar, geraldeando em 2013 o projeto Uma noite em Craterdam, no intuito de trazer vaga-lumes e outras luminosidades uranianas a público. O projeto foi abraçado pelo CCBNB/Juazeiro do Norte[11] , inserido no VII Rock Cordel e realizado de 15 a 20 de janeiro de 2013 (REJANE, Idem).

O reconhecimento da nova geração, nascida quando Geraldo Urano já estava impedido, por razões de saúde, de manter a sua efervescente “agenda” artística, é uma prova do longo alcance e da perenidade de sua obra. Isso foi possível por conta do exercício profundo e radical pelo qual se revestiu essa produção, fortemente marcada pela conjuntura que influenciou sua formação, tanto artística como existencial, em um sentido bem mais amplo.

As primeiras produções poéticas conhecidas de Geraldo datam do início dos anos 1970, mas sua metamorfose iniciou-se já no final da década anterior, nos ‘loucos’ e revolucionários anos 1960. Por essa época, o Cariri passava por uma onda de intensa e célere transformação, resultado da confluência de forças que operava tanto no plano interno como externo. Desenvolvimento com modernização é a chave para compreender aquelas mudanças que se efetivavam no plano regional, mas com forte influência da conjuntura global.

As utopias juvenis cultuadas em várias partes do planeta naquela época de efervescência, participação e experimentação convergiam em torno da construção holística da ‘Era de Aquarius’, da qual os artistas caririenses, em especial Geraldo Urano, eram entusiastas apologistas.

Pelas temáticas, paisagens e fatos narrados em seus escritos, tem-se a impressão de que Geraldo compensou a sua breve educação formal nas leituras dos livros, além das informações que absorvia por diversos meios, um processo certamente facilitado pela presença da indústria cultural cada vez mais intensa a partir dos anos 1960. Na sua ânsia por novidades, a nova geração local buscou os canais de suas transmissões, não só os meios de comunicação de massa, como televisão, rádio e a grande imprensa, mas outras mídias alternativas, geralmente bens culturais disponíveis, tais como livros e discos que circulavam de mão em mão entre os amigos e filmes não comerciais projetados em cineclubes.

Não se queria somente mudar o mundo, mas principalmente torná-lo melhor. E em um contexto conjunturalmente adverso, por conta da ditadura em vigor, a juventude caririense buscava compatibilizar o prazer de viver com a necessidade de resistir ao ainda enrijecido establishment nacional, com armas e estratégias que não fossem pinçadas apenas de um manual de guerrilha. A arte foi uma das alternativas de participação de um grupo de jovens, pessoas egressas, na sua maioria, da Pastoral de Juventude da Diocese do Crato, que, na época, era chamada de Movimento de Juventude do Crato (MOJUCRA). Foram estes jovens que fundaram o Grupo de Artes Por Exemplo, além de proporem a realização de um festival de música nos moldes daqueles que aconteciam no eixo Rio-São Paulo. Geraldo Urano, que atendia pelo nome de Geraldo Lima Batista, não foi somente um participante dentre os outros, - foi um dos principais protagonistas daquele coletivo de artista. É o que demonstra a citação a seguir:

Em 1971 acontecia a penúltima edição do Festival Internacional da Canção, no Rio de Janeiro, e o primeiro Festival Regional da Canção do Cariri, idealizado por Luiz Carlos Salatiel e Geraldo Urano, dois da Turma do Parque[12] que participavam do grupo católico Movimento da Juventude. O apoio do Padre Bosco foi fundamental para a criação do Festival, mas a interferência da Diocese não impossibilitou o evento de ser contestador e revolucionário, como deveria. Geraldo, que já havia sido Gandhi, Palitó, Efe e Batista antes de se autodenominar Urano, em uma das edições, foi carregado dentro de um caixão da entrada da Quadra Bicentenário até o palco (CONSPIRAÇÃO, 2014, p.48).

Ou seja, o protagonismo uraniano, extrapolando os versos escritos e publicados, alcançava outros meios, onde o próprio corpo era também um instrumento de expressão. Suas performances no Festival da Canção do Cariri, evento que aconteceu de 1971 a 1978, em Crato, são sempre lembradas pelos detentores da memória deste evento, como pode ser comprovado na citação acima. Assim também, pode-se dizer, foram antológicas as suas ‘intervenções’ nas várias edições do Salão de Outubro, mostra de artes promovida anualmente pelo grupo Por Exemplo, e que repercutia pela significativa representatividade de artistas participantes e diversidade de manifestações artísticas, como também pelo propósito de reunir as vanguardas artísticas e as manifestações ditas populares. Como um artista de vanguarda, Geraldo realizou performances originais e inéditas, para a época e para o meio, a exemplo de, numa demonstração de body art, expor o próprio corpo como parte de uma instalação artística. A cena, recapitulada pela memória de um artista contemporâneo, foi mais ou menos assim:

Corria o ano de 1974. Tempo fechado ainda. Os artistas cratenses driblavam a censura da plena ditadura e a monotonia da província cratense. Reinventavam-se como podia. O Salão de Outubro daquele ano, muito propositadamente, realizava-se nas dependências do antigo prédio que tinha sido um dia a Casa de Câmara e Cadeia. Numa das celas, quase uma masmorra, o poeta Geraldo Urano, exibindo sua magreza existencial e exibindo-se como uma obra de arte, permaneceu todo o tempo em que durou o salão, sentado como um yogui entre cacos de vidro e observando, com uma luneta, o público visitante[13].

Se a produção literária de Geraldo Urano, realizada entre as décadas de 1970 e 1990, tem alguma marca definidora, esta é a da ousadia das experimentações de linguagem, sem que a forma se sobreponha ao conteúdo.  A mensagem é muito forte, visto que ele sempre tem algo a dizer, demarcando espaços e pontos de vista. Neste sentido, o apogeu de sua obra é a década de oitenta, quando lançou dois interessantes livros: Vaga-Lumes (1984) e O Belo e a Fera (1989), além de publicar em jornais alternativos e compor canções em parceria com músicos da região. É dessa lavra a sua preocupação com o que na época se denominava de causa ecológica, onde o poeta denuncia os pesadelos da sociedade industrial contemporânea que são “vendidos” como se fossem itens de conforto:

uma coisa é sonhar
um dia viajar de boeing
outra coisa é pensar
no que vai pelo coração das baleias
em seu coração
sabe que no mundo deles
baleia quer dizer dinheiro
e são capazes de confundir
rodelas de cenoura com moedas de ouro

Geraldo Urano, bem além da perspectiva de militância ecológica que se desenvolvia na época, ainda bastante romantizada, cuja tônica era preservação da fauna e da flora em detrimento do próprio homem e de sua ambiência, - instiga uma simbiose holística, numa viagem ao centro da terra cuja senha é sentir-se um Jonas no interior da baleia. Em outro poema, se condói da desgraça de ser bacalhau nos mares da Noruega, tal como ser negro na África do Sul na época do apartheid. Mesmo assim, são os homens os amaldiçoados:

a lua cheia vagueia no céu de oslo
e nos mares...
lá embaixo os bacalhaus amaldiçoam a Noruega[14]

Ou ainda:

as aves voam e pousam
e voam e comem e voam e dormem
e voam e trepam e voam
e pousam e têm filhotes
e voam e cantam
e morriam
e hoje são mortas
(URANO, 1984, p. 53)

Naquela época ainda havia uma dicotomia entre a militância política propriamente dita e a militância ecológica, que depois seria chamada de política ambiental. A contribuição de Geraldo Urano, entretanto, foi muito além desta questão, visto que a tônica do seu discurso é o de enfrentamento direto ao establishment capitalista.

O bom combate da geração sessenta/setenta era contra um inimigo que, apesar de real, não tem uma única face e uma forma palpável: o velho e combatido establisment. Por isso, a luta a favor da vida e da felicidade vai dar-se em várias frentes, seja contra as ditaduras políticas que se instauram quase como uma regra no Terceiro Mundo, ameaçado que estava por uma onda revolucionária quase que totalmente jovem (tida pelo establishment como subversiva), seja contra aquilo que de mais conservador, no sentido reacionário e reativo às novas utopias, a geração anterior encarnava. Geraldo Urano, no entanto, não vai colocar sua poética a favor de uma militância partidária ou a uma causa política no sentido estrito do termo. Ao cantar Cuba, sua inspiração não foi a revolução encetada pelos ‘barbudos de Sierra Maestra’, mas da Cuba de

[...] homens, mulheres
e crianças
[...]
uma parte do corpo
da terra
como brasil e holanda
[...]
bonita como é bonito
um olho
ou qualquer outra
parte do corpo
por que vou fazer regime...
quando devo
consumir tanta esperança...
(URANO, 1984, p. 73)

Assim é a poesia uraniana: sem rédeas, sem limites, sem fronteiras, sem fim. Por isso, morreu hoje apenas o homem-matéria, pois o homem-poeta-espírito-luz continuará eterno, reverberando seus versos através das gerações e dos tempos.

Geraldo Urano, o mais novo imortal deste espaço-cósmico, que nós hoje, sob as bênção do Poeta, chamamos de Craterdã.

SALUTE, POETEIRO!


NOTAS

1. Geração Mimeógrafo, como ficou conhecida também a Poesia Marginal, foi um movimento literário que eclodiu, notadamente, no Rio de Janeiro na década de 1970, estando ligada ao fato de que muitos poetas recorriam ao mimeógrafo para copiar seus livros em um processo artesanal e sem qualquer tipo de vínculo com editoras, que não se interessavam pela produção dos chamados poetas marginais porque estes subvertiam os padrões literários e artísticos convencionados pela indústria cultural.
2. Vaga-Lumes (1984) e O belo e a Fera (1988).
3. Despretencionismo (1975), em parceria com Rosemberg Cariry (Antonio Rosemberg de Moura).
4. O ferrolho do abismo (2015).
5. Poesia de agora (1981).
6. Dentre outros, Seriará, Nação Cariri, Folha de Piqui e Jornal Sensurado.
7.  A cor do lírio (1986).
8.  Dentre outros, Guerra e Paz (Cleivan Paiva, 1983), Avallon (Abidoral Jamacaru, 1987), Nação Cariri (Bá Freire), Contemporâneo (Luiz Carlos Salatiel, 2004) e Na lata (Nacacunda, 2006).
9. No início dos anos 1970, Geraldo Urano viajou por vários estados brasileiros, deslocando-se através de caronas e sobrevivendo de artesanato, no mais autêntico estilo de vida hippie. Essa informação foi registrada na antologia Poesia de Agora (1981), organizada por Carneiro Portela..
10.  Publicado na edição de estreia do Folha de Piqui Jornal cultural alternativo que circulou no Cariri, em descontinuada periodicidade, na década de 1980.
11. Centro Cultural Banco do Nordeste Cariri, localizado em Juazeiro do Norte.
12. Turma do Parque era a designação informal do coletivo de jovens artistas que frequentavam assiduamente o antigo Parque Municipal do Crato, hoje Praça Alexandre Arraes, localizada no centro da cidade. Alguns moravam nas imediações, como o caso de Geraldo Urano.
13. Depoimento dado ao autor pelo fotógrafo Jackson Bantim em 3 de agosto de 2016.
14. Trecho de poema publicado na antologia Poesia de Agora, organizada por Carneiro Portela e lançada pela Secretaria de Cultura e Desporto do Estado do Ceará, no ano de 1981.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


CARIRY, Rosemberg. “Todos os caminhos levam ao Massafeira”. In: SOUSA, Ednardo Soares da Costa (Org.). Massafeira: 30 anos Som, Imagem, Movimentos, Gente. Fortaleza: Edições Musicais, 2010, pp. 96-123.

________. Prefácio da primeira edição do livro Vaga-lumes, ano 1984. In: O ferrolho do abismo. Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 2015, pp. 14-15.

CONSPIRAÇÃO de Aquárius, in: Cariri Revista. Edição 14, Set/Out 2014, pp. 46-51.

MARQUES, Roberto. Contracultura, tradição e oralidade: (re)inventando o sertão nordestino na década de 70. São Paulo: Annablume, 2004.

REJANE, Cláudia. Prefácio In: O ferrolho do abismo. Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 2015, pp. 6-10.

URANO, Geraldo. Vaga-Lumes. Fortaleza: Nação Cariri Editora / Livraria Gabriel, 1984

_______. O ferrolho do abismo: poesias completas. Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 2015

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Não existe medicina sem ética!


Hipócrates.jpg
Hipócrates: aplicarei os regimes para o bem do doente segundo o meu poder e entendimento, nunca para causar dano ou mal a alguém
Sobre a notícia de que uma 'dotôra' do Sírio-Libanês vazou informações sigilosas do diagnóstico de Dona Marisa Letícia - além de outros médicos terem trocado mensagens de ódio sobre o ocorrido em um grupo de Whatsapp -, o Conversa Afiada compartilha o texto do dr. Régis Eric Maia Barros, membro da Associação Brasileira de Psiquiatria e mestre e doutor pela Faculdade de Medicina da USP:

Sem ética, não há medicina


O que seria a arte médica? Seria uma mera busca pela cura dos males que acometem o homem? Não, a medicina é muito mais do que isso. A medicina e o seu agente – o médico – demandam outras coisas que vão além desse olhar simplório e reducionista.
Para exercer a medicina, são necessários outros valores humanos e éticos. Sem eles, não há médico e, muito menos, medicina. A ética é vinculante para que a medicina aconteça. Nessa lógica, a busca pelo agir certo e a necessidade de ser virtuoso, frente ao outro, é imperativo. Esse outro, que se encontra adoentado, precisa ser respeitado em todas as suas dimensões. Esse outro, que espera do médico proteção, nunca poderá ser atacado na sua essência humana. É função inata do médico e da medicina garantir tudo isso. Ser protetor independente de quem esteja necessitando de proteção. Essa condição vem muito antes do diagnóstico e do tratamento. Se essa função não for alcançada, para o que serviriam os atos de diagnosticar e tratar?
O médico não deve, em hipótese alguma, colocar sua vertente ideológica e política diante de um paciente que padece. Isso é um absurdo! Infelizmente, a sociedade vem alimentando isso. Lembremos da pergunta que “viralizou” nas mídias sociais e na internet: “quem você salvaria primeiro? O policial ou o traficante?
A questão não é essa. Na verdade, nunca foi. Contudo, de forma decepcionante, essa tem sido a toada do momento. Se o médico, ao tratar alguém, usar isso como crivo de conduta e de postura, ele não deveria ser médico. Se essa lógica prevalecesse, estaríamos presos ao bizarro. Imaginem vocês que fossem criadas emergências médicas para atender “comunistas” e “direitistas”. E que cada uma não atendesse aqueles pacientes de outra ideologia que chegassem e necessitassem de acolhimento. Imaginem, ainda, que algum médico de ideologia “X” recebesse um paciente importante da ideologia “Y”. Por ser de ideologia oposta a dele, o médico não acolhe de forma adequada esse paciente e acaba por vazar, publicamente, exames dele além de, por meio das mídias sociais, desdenhar e desejar o pior para ele.
Seria isso a medicina? Não, meus caros leitores, a medicina nunca foi, é e nunca será isso. Na verdade, estamos diante de um “fake” pouco ético e equivocado. O médico e a medicina não enxergam pela lente política e ideológica. Eles, simplesmente, enxergam pelos olhos da bondade, do humanismo e, sobretudo, da ética.
Régis Eric Maia Barros
Médico Psiquiatra

Em tempo: a tal 'dotôra' foi demitida na noite de ontem. Em nota, o Hospital Sírio-Libanês informou “ter uma política rígida relacionada a privacidade de pacientes” e repudiou a quebra do sigilo por profissionais de saúde.