TRIPULANTES DESTA MESMA NAVE

domingo, 31 de agosto de 2008

Começa os anos 90 e com ele o Governo Collor, o Caçador de Marajás. Uma das primeiras vítimas de tal volúpia de coronelzinho de engenho foi a demissão do poeta Hermínio Bello de Carvalho dizem que por vingança de um diretor da Televisão Educativa. Naqueles dias as reformas de faz de conta fazia suas vítimas entre os servidores públicos, mas a facada certeira foi na sociedade brasileira, não só pelo confisco do dinheiro, mas até pela cultura nacional. Hermínio é um símbolo e com símbolos não se brinca. A não ser estes seres desconexos da bolsa farta. Para recordar o valor do Hermínio, o mesmo letrista do Sei Lá Mangueira do Paulinho da Viola, segue esta belíssima letra que ele fez para um chorinho de Jacob do Bandolim, chamado Noites Cariocas. Vejam que beleza.

Noites Cariocas

Sei que ao meu coração só lhe resta escolher
Os caminhos que a dor sutilmente traçou
Para lhe aprisionar
Nem lhe cabe sonhar com o que definhou
Vou me repreender pra não mais me envolver
Nessas tramas de amor
Eu bem sei que nós dois somos bem desiguais
Para que martelar, insistir, reprisar
Tanto faz, tanto fez
Eu por mim desisti, me cansei de fugir
Eu por mim decretei que fali, e daí?
Eu jurei para mim não botar nunca mais
Minhas mãos pelos pés

Mas que tanta mentira eu ando pregando
Supondo talvez me enganar
Mas que tanta crueza
Se em mim a certeza é maior do que tudo o que há
Todas as vezes que eu sonho
É você que me rouba a justeza do sono
É você quem invade bem sonso e covarde
As noites que eu tento dormir meio em paz

Sei que mais cedo ou mais tarde
Vou ter que expulsar todo o mal
Que você me rogou
Custe o que me custar
Vou desanuviar toda a dor que você me causou
Eu vou me redimir e existir, mas sem ter que ouvir
As mentiras mais loucas
Que alguém já pregou nesse mundo pra mim

Sei que mais cedo ou mais tarde
Vai ter um covarde pedindo perdão
Mas sei também que o meu coração
Não vai querer se curvar só de humilhação


2 comentários:

socorro moreira disse...

Puseram faca em meu peito ...
mas quem disse que eu te esqueço mas quem disse que eu mereço ...
(Hermínio B.de Carvalho)

Carlos Rafael Dias disse...

Conheço essa magistral composição na voz de Gal Costa, gravada no impecável disco Gal Tropical.