TRIPULANTES DESTA MESMA NAVE

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Caleidoscópio 70: Luiz Carlos Salatiel & Los Fractais celebram um tempo que não quer ser esquecido


Foto: Kathylene Furtado
Texto: Carlos Rafael Dias

A estreia do show Caleidoscópio 70, ocorrida no início deste mês fevereiro, durante o VI Festival de Música Cordas Ágio, em Crato, suscitou algumas ponderações, das quais eu julgo importante comentar duas delas.
Em primeiro, a realização de um espetáculo carregado de forte simbolismo e protagonizado por um artista igualmente emblemático, poderia ser interpretada como um sinal de coroamento de uma longa e profícua trajetória artística. Mas não o é. Luiz Carlos Salatiel, esse ‘tal artista’, está prestes a completar 50 anos de vida artística, cuja marca principal é a obsessiva capacidade de surpreender, nunca aceitando a busca de uma carreira consolidada pelos cifrões do sucesso ou pelas críticas favoráveis veiculadas na imprensa. Essa trajetória, que já surpreende pela longevidade, alcança ainda maior expressividade se atentarmos para o fato dela acontecer praticamente em solo nativo, distante dos centros detentores e monopolizadores dos holofotes midiáticos tidos como necessários para a consagração de uma carreira artística. A segunda reflexão é sobre o conteúdo do espetáculo, ou seja, o repertório praticamente garimpado na parceria que Salatiel manteve com Geraldo Urano, um dos mais importantes e reconhecidos poetas nascidos no Cariri.
Metaforicamente, a aproximação de Salatiel com Urano nasceu de uma colisão cósmica entre dois astros que irradiam luz própria, destinada a provocar alguns cataclismos de efeitos invertidos nessa nossa terra-mãe. Ambos nasceram praticamente sob o mesmo céu astrológico, no ano da graça de 1953, influenciados talvez pela sincronicidade histórico-cultural que prenunciava a ocorrência de um iminente turbilhão universal. O rock’n’roll dava seus primeiros acordes e os poetas da geração beat desafinavam “o coro dos contentes”, aplainando o terreno para o encontro físico dos dois, que viria a ocorrer no início da década de setenta, no seio do Movimento de Juventude do Crato - MOJUCRA, braço ativo da Pastoral de Juventude da Igreja Católica. Este era o espaço possível de participação para uma geração sufocada pelo establishment perverso que vigorava na época, tendo à frente o aparelho repressivo do regime militar instaurado pelo golpe de 1964. Foi sob essas condições que Salatiel e Urano idealizaram o Festival da Canção do Cariri, realizado em Crato de 1971 até 1978, quando surgiu toda uma geração de músicos compositores regionais, como Abidoral Jamacaru, Cleivan Paiva, Luiz Fidélis, José Nilton Figueiredo, Pachelly Jamacaru e poetas como Rosemberg Cariry e José Flávio Vieira, dentre outros. Concomitantemente, iniciou-se também a parceria musical da dupla, gestada no ‘útero eletroacústico’ da banda Cactus, vencedora daquele primeiro festival. Por isso, segundo Salatiel, “o show poderia ter sido feito nos anos setenta. Se não foi possível lá é porque era para ser feito agora com a mesma irreverência, timbres e cores caleidoscópicas daqueles loucos e apaixonantes anos”.
A parceria entre Salatiel e Urano, além de profícua, foi longa, pois durou enquanto o poeta viveu e a amizade fraternal entre os dois permaneceu. Por isso, ela trata de um leque de temas sintomáticos de uma época marcada por extremos paradoxos; uma época que pode ser resumida na frase que o violinista Yehudi Menuhin disse para descrever o século XX como um todo, “[um tempo] que despertou as maiores esperanças já concebidas pela humanidade e destruiu todas as ilusões e ideais”.
As esperanças despertadas, notadamente entre os anos sessenta e oitenta do século XX, podem ser traduzidas pelas radicais transformações impulsionadas pela revolução contracultural protagonizada pela juventude, acenando para a possibilidade de a humanidade ser redimida dos males que lhe são intrínsecos, sob a marcha iniludível da própria civilização que se construía. As desilusões, no entanto, também triunfaram sob o tropel dessa mesma civilização que se mostra temerosa das radicalizações inerentes às transformações sociais imprescindíveis ou inexoráveis. Essa gangorra existencial, que para muitos, em ambos os lados das trincheiras, encarnam a maniqueísta luta do bem contra o mal, marcou com profundidade a produção cultural daquele período e, por isso, permeia as composições assinadas pela dupla caririense.
Salatiel e Urano cantam a dor e o contentamento de terem vivido esses duros, urgentes e delicados tempos. E o fizeram com base na arte, ao mesmo tempo, engajada e diletante, mas sempre provocadora de catarse. Tal como o filósofo Nietzsche fez, elegeram a música e seus significados para a afirmação da vida: amor, liberdade, fatalismo e morte. Daí o tom de tragédia e celebração que o espetáculo Caledoscópio70 carrega na sua concepção e interpretação. Em outras palavras, o verso uraniano: seja feliz mastigando o seu chiclete.

Canções de amor e resistência – O repertório do espetáculo, como se disse, reflete notadamente os sonhos e os pesadelos vividos em terras sob o Trópico do Equador: Brasil profundo, anos de chumbo, caleidoscópio setenta, ‘profundezas que cintilam constelações’. São canções de amor e resistência cantadas, gritadas e sussurradas sob/sobre uma muralha sonora construída, tijolo a tijolo, pela competente banda Los Fractais, integrada por Vinícius Saravá (teclados), Stênio Alves (Guitarra), Thiago Leonel (contrabaixo) e Remy Oliveira (bateria). A propósito, a relação entre Salatiel e a ‘garotada’ da banda é de puro mutualismo: eles se retroalimentam de experiência, sabedoria e energia. Assim, a pegada roqueira dos jovens músicos, com direito a citação de Voodo Child (Jimi Hendrix Experience) não encobre o ecletismo das influências por todos sofrido, vide igualmente as citações de O Guarani (Carlos Gomes) e de repentes de violeiros de feira -, que, ao lado do domínio de palco de Salatiel, fortemente influenciado pelo teatro de Antonin Artaud, são exemplos de virtuosismo e sacação para reafirmar o universalismo que sempre foi a marca da parceria desses que são considerados os glimmer twins caririenses.
    Contradizendo um verso de uma das mais representativas canções do repertório – nada de novo pelos corações modernos -, o espetáculo Caleidoscópio 70, é uma prova de que, sim, há novidades no front da cultura brasileira. Novidades inteligentes e de qualidade e que podem nos abstrair um pouco do lixo que assola o nosso pobre e ao mesmo tempo multimilionário showbiz. Em meio à profusão de ‘vittars’ e ‘anittas’ da vida, Caleidoscópio 70 pode funcionar como uma ‘vittamina’ (oh, infame trocadilho!) para a mente e o espírito, olhos e ouvidos dos deserdados amantes da boa música. Nunca os versos cáusticos e ferinos, mas às vezes docemente românticos de Geraldo Urano, e a performance desabusada e instigante de Salatiel, emoldurados pelo som encorpadamente psicodélico dos Los Fractais, são tão indispensáveis como agora.

Contatos para show
Facebook: www.facebook.com/ocaleidoscopio70/
E-mail: ocaleidoscopio70@gmail.com
Telefone: (88) 9 9806-4693
Produtor executivo: Edmilson Alves

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Longa vida, ágeis mãos...

                
“Eu sou uma parte de tudo, tal
como a hora é uma parte do dia.”
Epicteto

               
                                              
A vida, amigos, olhando assim de relance, parece carregar consigo uma injustiça congênita. Alguns nascem em palácios e outros em manjedouras. As oportunidades nos são distribuídas de forma díspare e pouco  equânime. Numa extremidade muitos passam fome, na outra alguns fazem dieta. Se repararmos direitinho, no entanto, existe um socialismo vital que funciona como uma balança de precisão. A Morte nos iguala a todos: o produto final de sonhos, aspirações, ambições , querelas e vaidades  é sempre o mesmo : o pó. Além de tudo , equanimemente, a cada um de nós só é permitido viver um pequeno e ínfimo fragmento da história da humanidade. Com sorte, vararemos uma centúria, seremos testemunha ou protagonistas de alguns fatos históricos e o destino final de cada um , por mais aventuroso e épico que o pretendamos,  sempre desaguará na foz do esquecimento. A única possibilidade que nos resta para ampliar e esticar um pouco a pequena quantidade de vida que nos é presenteada,  é buscar fazê-la mais intensa, mais pulsante. Podemos turbiná-la com os combustíveis propulsivos mais corriqueiros: com Esportes, com Vícios, com Virtudes. Sempre é bom, no entanto, lembrar: se acendemos a vela nas duas extremidades, existe sempre a possibilidade de se ter um brilho bem mais intenso, mas , possivelmente, a parafina consumida rápido, tornará a luz mais incandescente, porém mais fugaz.
                                   Nestes dias comemoramos uma história de vida que, simplesmente, quebra a inexorabilidade desta regra. O percurso de um desses raros visionários que cedo entendeu : diante de uma tragédia social reiterada, planejada meticulosamente , sempre era possível fazer a nossa parte, mesmo ante as crônicas cegueira e surdo-mudez dos governos instituídos. O Padre Ágio Moreira escolheu o trabalho social como intensificador de sua existência. Intuitivamente, despertou para as forças libertadora e transgressora da Arte e foi assim que, há 50 anos, fundou a SOLIBEL -- Sociedade Lírica do Belmonte -- aqui em Crato. Inserida numa comunidade periférica e rural, de pequenos e pobres camponeses, a Música , simplesmente, mudou destinos, transformou mentes e corações, imantou gerações com novos valores e novos encantos, abrindo horizontes e perspectivas. É que a Arte tem esse poder único de conectar espíritos e de inseri-los como peça única e  insubstituível da grande colcha de retalhos universal. E imaginar que a música erudita, tida sempre como de elite e inalcançável aos mais humildes,  seria capaz de enfeitiçá-los e enebriá-los ! Emociona-nos ver, hoje,  a nobreza aplaudindo os humildes camponeses que provam que é possível manejar tão bem a enxada e a foice como o violino e o violoncelo ! Parece claro que todas as nossas diferenças  são uma questão inerente ao acesso e à oportunidade.
                                    Quebrando todas as normas, o brilho do nosso sacerdote o fez longevo, fazendo com que sua missão ultrapassasse uma centúria e, ao contrário do que seu nome pareceria indicar, não recebeu lucros da sua messe e do seu trabalho hercúleo nunca auferiu nenhum ágio.
                                   São estas pequenas e individuais ações que movem as catracas do mundo. A evolução da humanidade sempre dependeu de visionários que conseguem enxergar para além dos muros do seu pomar. Melhorar um pouquinho o colorido do meu retalho faz com que toda a colcha fique mais bela e mais fulgurante. Que país construiríamos,  se a caridade fosse substituída pela justiça social e se os governos instituídos gozassem da mesma força e sensibilidade do nosso Padre Ágio Moreira ?!  A SOLIBEL , apesar de todas as desesperanças e percalços dos últimos tempos , ensina-nos todo dia a música e a coreografia de novos tempos que se prenunciam.

Crato, 02/02/18
                                      
                                  
                                   

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

COISA COM COISA.
sexta-feira, 11 de janeiro de 2013
12:33
Dia destes estive conversando com uma criança, atividade de que gosto muito. É um menino inteligente e muito perspicaz. Depois de algumas brincadeiras linguísticas, utilizando rimas, ritmo, e um pouco do imaginário infantil, no meio da conversa ele parou, pensou um pouco e disse num tom entre sério e debochado: "Ele não diz coisa com coisa!" Outro adulto que estava presente repetiu a frase como quem confirma e aprova a expressão. Fiquei triste e bastante preocupado. Um adulto pensar assim, é até natural, mas uma criança de cinco anos com sintomas dessa natureza?
Tudo bem que um gato seja um gato e um passarinho seja um passarinho... Mas com um pouco de imaginação, um gato pode querer voar e cantar como um passarinho, ou um passarinho aprender a miar e conversar com o gato. Como diria um amigo meu, o mundo das fábulas é fabuloso!
Enquanto poeta, transito livremente entre o estreito universo da razão e as infinitas possibilidades da transcendência. Afinal, poesia é transcendência.
Uma criança de tão pouca idade, olha e vê o mundo com espanto, onde tudo é novidade. Um caramujo no jardim, uma borboleta sobre a flor, uma fileira de formigas... Tudo isso é ao mesmo tempo real e fantástico. Partes de um mundo a descobrir e reinventar. A lógica binária dos computadores não chega nem a arranhar o verniz destas realidades tão profundas e, por isso mesmo tão simples, quando tenta explicá-las.
Sou irmão umbilical das metáforas, das metonímias, enfim da metalinguagem. Assim, acredito e tenho fé, que a Verdade - com "v" maiúsculo e a Beleza -idem- só podem ser alcançadas por esta via. Entenda-se como metalinguagem todas as formas de linguagem que transcendam aos estreitos limites racionais, incluindo as não verbais.
Não que eu despreze a Razão e o conhecimento que dela decorre. Afinal toda esta conversa (para muitos, chata) está firmada em argumentos plenamente razoáveis. Prefiro considerar que a razão e suas ferramentas sejam como pedras num caminho pantanoso, onde devamos pisar com segurança para dar um próximo passo. E ainda que nos arrisquemos pisando no desconhecido, as pedras da razão devem ser nossas referências, nosso porto seguro entre um e outro movimento.
Vejam que não posso abrir mão da metáfora, mesmo pra pensar a razão. Então vamos imaginar que a casca do ovo, em sua pequena espessura, contenha o universo racional. Toda a razão e todo o conhecimento racional ali estão contidos. Com este conhecimento é possível abarcar todas as realidades racionais. Tudo que existe no universo racional, contido na espessura da casca de um ovo.
Admito que isso seja suficiente, para a maioria das pessoas. Acontece que no interior desta casca imaginária, no interior deste ovo-metáfora, existe mais um universo de fenômenos e possibilidades, totalmente desconhecido e inatingível pelas ferramentas do mundo racional. E como não bastasse, existe ainda o exterior deste ovo imaginário, que não compreende nem sua casca (o mundo racional) nem o seu interior.
Ao descobrir-formular este pensamento tenho um susto imenso, quase um surto, e percebo que a Verdade e a Beleza são muito maiores e mais plurais do que poderiam supor nossos parcos recursos racionais.
Penso com Leonardo (Boff) que a transcendência seja uma das necessidades humanas; assim como o alimento, o abrigo, a procriação; e se não fosse esta necessidade de transcender nossa condição humana, de buscarmos o além-de-Nietzsche, não teríamos supra-humanos como Leonardo (o Da Vinci); a Terra teria a forma de uma bolacha e seria o centro do universo; o espaço seria plano e Einstein e Deus estariam errados, e...
Sinto muito pelos meninos inteligentes que são forçados a dizer coisa com coisa. Sinto por eles e por toda a humanidade.
João Nicodemos .

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Acordado: show de Luciano Brayner no VI Festival de Música Cordas Ágio


                                            Luciano Brayner: acordado, afiado e aceso.
                                            Show que promete animação com reflexão

Será do músico Luciano Brayner o privilégio de abrir uma série de expressivos e aguardados shows que acontecerão no Espaço Padre ágio, na da Vila da Música, bairro do Belmonte, em Crato, durante o VI Festival de Música Cordas Ágio. O show de Brayner, intitulado “Acordado”, será nesta quinta-feira, dia 1º de fevereiro, as 22 horas. Gratuito e imperdível.

Luciano Brayner, cantor, compositor e instrumentista pernambucano radicado no Cariri, apresenta um trabalho que estabelece um rico diálogo entre a musicalidade nordestina com suas tradições e outras vertentes presentes na música popular brasileira. O resultado se traduz numa música eclética, marcada por influências de vários gêneros e estilos. Com forte presença de palco e com uma voz com grandes recursos expressivos, Brayner nos oferece um repertório autoral de muita originalidade em interpretações de grande vigor e apuro estético. Samba, cabaçal, ijexá, bossa nova, baião e maracatu são alguns dos muitos gêneros que se harmonizam na expressão musical desse artista, cujo trabalho demonstra, cada vez mais, a qualidade e a diversidade da música popular independente produzida no Cariri e no Nordeste atualmente.

Acordado, afiado e aceso – No show, Brayner se expressará com toda a sua versatilidade - além de cantar e  tocar violão, flauta, sax e pífano, assina todos os arranjos - e será acompanhado de uma banda formada por alguns dos mais talentosos músicos da região. O repertório é composto por canções inéditas em conjunto com outras já conhecidas, presentes em seu primeiro disco, Casa de Badzé, com novos arranjos elaborados especialmente para o Festival Cordas Ágio, valorizando a presença e as sonoridades de cordas friccionadas.

Num dos momentos que promete ser um dos mais marcantes da noite, Brayner interpretará a canção Bárbaras palavras acesas, composta em homenagem ao poeta cratense Geraldo Urano, um dos maiores ícones das vanguardas artísticas no Cariri, falecido em fevereiro de 2017. Outro momento de destaque e que constitui uma oportunidade de reflexão política dentro do show, é o samba inédito Ai loviú Rintintin, onde de forma bem-humorada e crítica o artista comenta aspectos da atual situação política instaurada no país. Passeando por repertórios alheios, Brayner fará uma releitura tanguística da canção Cálice, de Chico Buarque e Gilberto Gil, que dialoga em seguida com o belo e lírico tango de Astor Piazzolla, Vuelvo a Sur.

Ao final, como de costume, com seu pífano afiado e acompanhado apenas por percussão, de forma totalmente acústica, encerra o show em grande estilo, em clima de terreirada, no meio da plateia, numa evocação que celebra a cultura musical do pífano e das bandas cabaçais, inspiração e influência bastante presente na sua trajetória artística e marca maior da sonoridade tradicional do Cariri.


SERVIÇO
Show Acordado, com Luciano Brayner e banda
Local: Espaço Padre Ágio, em frente à Vila da Música, distrito do Belmonte, Crato
Data: 1º de fevereiro (quinta-feira), as 22 horas
Livre e gratuito.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Caleidoscópio70: show celebra parceria musical entre Luiz Carlos Salatiel e Geraldo Urano

Luiz Carlos Salatiel & Geraldo Urano: os glimmer twins caririenses
(Foto: Pachelly Jamacaru)


Carlos Rafael Dias

Estreia neste sábado, 3 de fevereiro, no Festival Cordas Ágio, em Crato, o show Caleidoscópio70, que traz o cantor e compositor cratense Luiz Carlos Salatiel à frente da banda Los Fractais. Porém, o detalhe de que o show é totalmente composto de composições de Salatiel em parceria com o poeta Geraldo Urano torna o evento muito maior do que um mero espetáculo de entretenimento artístico. Será a celebração de uma profícua e genial parceria interrompida definitivamente há exato um ano, com o falecimento de Geraldo Urano, após uma longa e dolorosa doença psíquica adquirida em meados dos anos 80, época de maior produtividade da dupla. No entanto, desde a década anterior – os caleidoscópios anos 70 que inspiraram o título do show – que a dupla mantinha uma amizade fraternal e artística, responsável por momentos que engrandeceram a cena cultural caririense. Só que o encontro dos dois parece ter ocorrido bem antes. Na verdade, metaforicamente, essa aproximação nasceu de uma colisão cósmica entre dois astros que irradiam luz própria, destinada a provocar alguns cataclismos de efeitos invertidos na nossa terra-mãe.
Ambos nasceram praticamente sob o mesmo céu astrológico, no ano da graça de 1953, influenciados talvez pela sincronicidade histórico-cultural que prenunciava a ocorrência de um iminente turbilhão universal. O rock’n’roll dava seus primeiros acordes e os poetas da geração beat desafinavam “o coro dos contentes”. Mas o encontro fisico entre os dois só se deu mesmo no início dos anos 1970, na cidade do Crato, na emblemática região do Cariri cearense, no seio do antigo Movimento de Juventude do Crato - MOJUCRA, braço ativo da pastoral de Juventude da Diocese do Crato, espaço possível de participação para uma geração sufocada pelo establishment perverso que vigorava na época, tendo à frente o aparelho estatal repressivo instaurado pelo golpe militar de 1964, apoiado localmente pela tradição católico-provincial.

Anos setenta - Como informa o press-release do espetáculo, Salatiel e Urano, como membros do MOJUCRA, foram os responsáveis pela idealização dos inesquecíveis festivais da canção realizados no Crato entre os anos de 1971 e 1978, quando surgiu toda uma geração de compositores, como Abidoral Jamacaru, Cleivan Paiva, Luiz Fidélis, José Nilton Figueiredo, Pachelly Jamacaru e poetas como Rosemberg Cariry e José Flávio Vieira, dentre outros. A parceria Salatiel e Urano iniciou-se por essa época, gestada no ‘útero eletroacústico’ da banda Cactus, integrada, além da dupla, pelos irmãos Alberto (Louro) e Abidoral Jamacaru e mais Hobert e Xico Carlos, que depois seria o baterista do Papa Poluição, banda de pop-rock formada, em meados dos anos 1970, por músicos cearenses radicados em São Paulo. Por isso que, segundo Salatiel, “o show poderia ter sido feito nos anos setenta. Se não foi possível lá é porque era para ser feito agora com a mesma irreverência, timbres e cores caleidoscópicas daqueles loucos e apaixonantes anos”.
A trajetória desta parceria foi em parte interrompida ou limitada por conta de problemas de saúde que começaram a atormentar o poeta a partir de 1987 e que o acompanharam até sua morte, em fevereiro de 2017. Portanto, o seu sofrimento foi longo, se agudizando com o passar do tempo. Em todo esse período, Salatiel foi um amigo constante, visitando-o periodicamente, buscando estimulá-lo a continuar a escrever, coisa que Urano infelizmente parou de fazer nos últimos anos de vida.
Este show traz, pois, um recorte da produção musical realizada por dois parceiros que se irmanaram como almas gêmeas moldadas pela arte que se engaja na busca da vida em toda sua plenitude, com a intenção, também, de consagrar e perenizar a obra dos dois: a genialidade poética de Urano e a musicalidade performática de Salatiel que, no palco, sempre foi um dos grandes intérpretes do Cariri.
Um show para ver, ouvir, sentir e viver, deslocando-se para uma época onde o lema era simplesmente ‘paz e amor’, tudo o que hoje estamos cada vez mais precisando.


SERVIÇO
Estreia do show Caledoscópio70, com Luiz Carlos Salatiel & Los Fractais - Vinícius Saravá (teclados); Stênio Alves (Guitarra); Thiago Leonel (contrabaixo) e Remy Oliveira (bateria)
Data: 3 de fevereiro de 2018, as 22 horas
Local: Espaço Padre Ágio, Vila da Música, Belmonte, Crato.
Livre e gratuito.

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

A PALAVRA DO PROMOTOR


Aliás, nesta ditosa “República de Curitiba”, de prodígios imensuráveis, nada há que não nos espante.
 
Nos lugares solitários, onde toda a vaidade humana se apaga, pendurados nos locais de costume, encontram-se em fartura e esplendor papéis higiênicos ilustrados com o Artigo 5º da Constituição da moribunda República Brasileira.

O papel assim estampado, prestimoso amigos das horas aflitas, está ali à disposição e limpeza das intocáveis e impolutas nádegas dos notáveis juristas desta excepcional jurisdição”.


Fuad Faraj (Promotor de Justiça do Ministério Público do Estado do Paraná).




A PALAVRA DO PROMOTOR

"ALIÁS, NESTA DITOSA REPÚBLICA DE CURITIBA, DE PRODÍGIOS IMENSURÁVEIS, NADA HÁ QUE NÃO NOS ESPANTE.
NOS LUGARES SOLITÁRIOS, ONDE TODA A VAIDADE HUMANA SE APAGA, PENDURADOS NOS LOCAIS DE COSTUME, ENCONTRAM-SE EM FARTURA E ESPLENDOR PAPÉIS HIGIÊNICOS ILUSTRADOS COM O ARTIGO 5º DA CONSTITUIÇÃO DA MORIBUNDA REPÚBLICA BRASILEIRA.
O PAPEL ASSIM ESTAMPADO, PRESTIMOSO AMIGO DAS HORAS MAIS AFLITAS, ESTÁ ALI À DISPOSIÇÃO E LIMPEZA DAS INTOCÁVEIS E IMPOLUTAS NÁDEGAS DOS NOTÁVEIS JURISTAS DESTA EXCEPCIONAL JURISDIÇÃO".


FUAD FARAJ (PROMOTOR DE JUSTIÇA DO MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO PARANÁ).

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

O MINISTRO E OS DONOS DO DINHEIRO – José Nílton Mariano Saraiva

Aécio Neves, Daniel Dantas, Roger Abdelmassih, Jacob Barata, Ike Batista, José Riva, Anthony Garotinho, Adriana Ancelmo, Beto Richa e Benedito Lira, dentre muitos outros (a lista seria infindável), têm alguma coisa em comum: 01) trafegaram na ilegalidade por anos e anos e, portanto, são comprovadamente marginais; 02) têm muito dinheiro; 03) depois de roubarem estratosféricas somas de dinheiro foram liberados da prisão por decisão monocrática do excelentíssimo senhor ministro do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes.

E como na lista do Gilmar Mendes não figura um só pobre, sequer um remediado da classe média, o que metade do mundo e a outra banda pode pressupor é que, por caminhos que o mortal comum desconhece, o tal ministro deve receber, sim, algo em troca. Não no Brasil, mas, provavelmente, lá fora. O quê, fica a critério de cada um emitir algum juízo de valor.

Fato é que, embora já houvesse um certo ar de “desconfiômetro” da população em razão da postura ousada do ministro, agora temos uma outra grave denúncia pública de um juiz federal com atuação na cidade de Campos, no Rio de Janeiro, tratando da liberação do Anthony Garotinho por Gilmar Mendes, a saber:

Em um vídeo estarrecedor, o juiz Glaucenir Oliveira, que prendeu de forma extremamente polêmica – e, para muitos juristas, ilegal – o ex-governador do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho, decidiu atacar o ministro Gilmar Mendes, que determinou a libertação do político nesta semana; na mensagem, o magistrado acusa Gilmar Mendes de ter recebido dinheiro em troca de decisão favorável: “a mala foi grande”, afirmou. Gilmar soltou Garotinho, apontando que não havia qualquer elemento que justificasse a prisão preventiva; procurado pela reportagem, o juiz Glaucenir ainda não se manifestou.” (ipsis litteris).

Arrogante, sarcástico e prepotente, Gilmar Mendes já humilhou advogados em sessões do Supremo Tribunal Federal, assim como “peitou” os colegas daquela Corte (em mais de uma oportunidade), por “ousarem” questionar suas bravatas (lembremo-nos que em um embate duríssimo, no recinto do STF, o ex-ministro Joaquim Barbosa o acusou de “coronel” e de destruir o Judiciário brasileiro).

Não esquecer, também, que nos dias atuais Gilmar Mendes funciona como principal “conselheiro-orientador” do ilegítimo presidente, e que, coincidentemente, sua esposa (do ministro) foi aquinhoada com uma polpuda remuneração (fala-se em mais de R$ 30.000,00) para funcionar como membro efetivo de um dos Conselhos da Itaipu Binacional.

Pode até não ter nada a ver, mas tudo isso nos faz lembrar o grande e sempre atual Nelson Rodrigues, ao afirmar que: “Se os homens de bem tivessem a ousadia dos canalhas, o mundo estaria salvo.”



sábado, 23 de dezembro de 2017

NOS TEMPOS DA “BRILHANTINA” - José Nílton Mariano Saraiva

Localizada ao oeste do estado do Rio Grande do Norte, quase que na fronteira com o Ceará, Pau dos Ferros era (à época) uma dessas agradabilíssimas minúsculas cidades interioranas (mudou bastante e hoje é uma espécie de “cidade-pólo”, maior que o Crato em todos os aspectos), em razão, principalmente, da índole receptiva do seu povo e de um detalhe não tão comum em cidades interioranas: a “beleza brejeira” e ao mesmo tempo esfuziante das suas mulheres, aliada ao extremo bom gosto e requinte com que se vestiam. Até parece que os famosos estilistas de moda, antes de lançarem suas revolucionárias coleções em Paris, Roma ou Milão, faziam de Pau dos Ferros uma espécie de “passarela-laboratório-experimental” às suas criações (como luxavam aquelas jovens e belas mulheres pau-ferrenses).

Vivenciamos tudo isso em meados da década de 70, quando para lá nos deslocamos a fim de cumprir adição de 90 dias no Banco do Nordeste do Brasil S/A (BNB), então a única agência bancária da cidade; e, embora realmente o trabalho fosse intenso (a ponto de se trabalhar de 10 a 12 horas por dia), a “diária” que se recebia compensava plenamente, além do que havia uma espécie de “cumplicidade” entre os que compunham a equipe beenebeana e a população da cidade.

O dia-a-dia.

Ao final da diária jornada de trabalho, a parada obrigatória era a “Sorveteria do Sales” (próspero comerciante local), onde sorvíamos uma “geladérrima”, ao tempo em que as paqueras se sucediam, furtivas ou abertamente, num clima leve e sadio. Os fins-de-semana, então, eram literalmente uma festa: num deles, por exemplo, tínhamos a escolha da “miss olhos” (obviamente uma amistosa disputa entre aquelas moçoilas adolescentes maravilhosas, para se avaliar quem tinha os “olhos” mais bonitos); na outra semana, a escolha do casal que melhor dançava; na outra, a escolha daquela que melhor desfilava, e por aí vai. Era uma festa permanente. E tudo dentro da mais pura inocência e simplicidade. O certo é que a “coisa” era tão legal e gostosa que, não mais que de repente, o tempo voou, os 90 dias exauriram-se e tivemos que voltar para Fortaleza (houve uma tentativa de prorrogação da adição, infrutífera).

Antes da volta, entretanto, foi firmado um compromisso, uma profissão de fé, um autêntico pacto de boêmios: sempre que houvesse uma festa que compensasse, seríamos acionados, tempestivamente. E assim, todos nós (mesmo os casados), que por lá passamos na condição de “adidos” (uns seis colegas, não necessariamente no mesmo período), findamos por voltar várias vezes.

Os ônibus que faziam o percurso Fortaleza-Pau dos Ferros eram os famosos “pinga-pinga” que, além de terrivelmente desconfortáveis, eram desprovidos de banheiro. Pois foi numa dessas viagens que o “inusitado” pintou no pedaço.

Já saímos da rodoviária de Fortaleza um tanto quanto “melado” (muita “birita” para – vejam só que desculpa mais esfarrapada - poder ter coragem de enfrentar a buraqueira, já que parte da estrada era de piçarra). Na chegada a Pau dos Ferros, seis da manhã, os notívagos “recepcionistas” (colegas do Banco) já estavam a nos esperar, à porta do ônibus, com um churrasquinho no ponto e aquela cervejota “fumacenta de gelada” (é que a “agência do ônibus” ficava estrategicamente localizada frente a um bar, que aos finais de semana funcionava 24 horas por dia, ao som maravilhoso de um Paulo Sérgio, Jerry Adriane, Carlos Gonzaga, Reginaldo Rossi, Valdik Soriano e por aí vai).

Os “trabalhos”, então, se iniciavam ali mesmo, sem nem escovar os dentes. De lá e durante todo o dia de sábado, os encontros, reencontros e novas amizades, na Sorveteria do Sales, na Churrascaria do Anísio e/ou no meio da rua, com aquelas mulheres monumentais.

À noite, após uma passada na “república” a fim de tomar um banho caprichado, vestir a “CAMISA VOLTA AO MUNDO” e a “CALÇA DE TERGAL”, passar uma “BRILHANTINA” no cabelo e colocar o perfume “LANCASTER”, o objeto de desejo: a esperada festa no único clube da cidade, que se prolongava até o sol raiar. Dali, depois do famoso “caldo de misericórdia” servido num posto de gasolina, volta à república pra mudar de roupa e todo mundo se mandava pra “barragem” (na verdade, o açude que abastecia a cidade e onde existia uma palhoça que servia “o melhor tucunaré de água doce do mundo”); e tome “mé”. Aí, já na base do famoso “cuba-libre” – mistura tanto saborosa como explosiva de Ron Montila e Coca-Cola.

Naquela tarde de domingo, Rivelino, famoso jogador que houvera se destacado no Corinthians, faria sua estreia no time do Fluminense (no Maracanã), jogando contra o… Corinthians. E, mesmo diante de uma televisão preto-e-branco com uma imagem pra lá de sofrível, na sala da casa do prefeito da cidade (tricolor roxo) formamos uma grande torcida do Fluminense (pra agradar o homem, é claro). E tome “Ron Montila”, acompanhado de uma miscelânea de tira-gostos: panelada, buchada, tucunaré, torresmo, churrasco, o escambau (era comida que dava no meio da canela). O certo é que o tempo, de novo, voou, e de repente chegou a “hora indesejada” do retorno.

E aí a velha história repetiu-se: já chegamos na “parada do ônibus” mais pra lá do que pra cá, “puto de raiva” por ter que voltar no melhor da festa e lá encontramos a colega do BNB Julieta, que fora adida e também houvera ido passar o final de semana. Após cumprimentá-la sentamos na poltrona (???) e… apagamos.

Lá pras tantas (entre duas e três horas da madrugada) após uma parada abrupta do coletivo a fim de desembarcar algumas pessoas que moravam na zona rural ao lado da estrada, “ressuscitamos” e, pior, com uma necessidade imperiosa e descomunal, de “descarregar”, “arriar a massa” (lembremo-nos que o ônibus não dispunha do famoso toilette). Falamos com o motorista e o trocador (existia um, sim, encarregado de recolher o dinheiro das passagens) e eles sugeriram que descêssemos o barranco e fizéssemos o “serviço”, enquanto eles procuravam e entregavam a bagagem do pessoal rural.

E só deu tempo mesmo de descer o barranco às pressas, arriar a bermuda e... tome merda, muita merda, merda em profusão, em pleno estado líquido e em “chicotadas” monumentais, brabíssimas (o “inusitado” dera o ar de sua graça e o Ron Montila e apetitosos tira-gostos finalmente cobravam seu preço).

Até hoje não conseguimos lembrar é se nos deixamos absorver pelo esplendor da belíssima lua no céu (em pleno meio da caatinga), se dormimos de cócoras ou, simplesmente, se sentamos em cima do produto; o certo é que, de repente, milagrosamente conseguimos “captar” a zoada de um carro acelerando. Ao olhar, desesperado, pra cima, rumo à estrada, divisamos o ônibus se afastando, lentamente. Não houve tempo para raciocinar: num átimo, nos despojamos da bermuda e da cueca, pegamos essa última e passamos de forma apressada no traseiro, a jogamos fora, vestimos novamente a bermuda e subimos a ribanceira feito um louco.

Contando com a providencial solidariedade do pessoal que havia descido (umas oito pessoas) que se puseram a “urrar” em plena duas horas da manhã, o ônibus parou mais à frente. Resfolegando, com os bofes saindo pela boca, suando em bicas por todos os poros, alcançamo-lo e, evidentemente, reclamamos do motorista e cobrador; eles alegaram que haviam “esquecido” e pediram desculpas.

Quando sentamos na poltrona (???), uma réstia da luz da Lua que refletia pela janela nos permitiu observar que a colega Julieta (ainda dormindo) imediatamente virou o rosto para o outro lado. Deixamos pra lá. Sentamos e... apagamos (de novo). Viagem que segue...

Oito horas da manhã, rodoviária de Fortaleza, sol a pino. A muito custo e após nos sacolejar bastante, a “dupla-sertaneja” (motorista e cobrador), consegue finalmente nos “trazer de volta”. De mau humor, com um terrível gosto de “cabo-de-guarda-chuva” na boca, doido pra chegar em casa, não ligamos para a cara feia dos dois, pegamos nossa sacola que estava na parte de cima e saímos.

E foi aí, ao tentar nos despedir da colega Julieta, que vimos a “merda” (literalmente) que tínhamos armado: é que ela (e demais passageiros), não só se recusava a aceitar o nosso cumprimento, como, também, olhava(m) fixamente para nossa mão estendida. Uma “palhinha” de sobriedade pintou de repente e, já acometido de um certo receio, um pressentimento estranho, um friozinho a nos percorrer a espinha, acompanhamos o mortífero olhar da Julieta e, só então, entendemos a dimensão da coisa: não só nossa mão, mas partes do antebraço, coalhadas estavam de fezes, em transição do estado líquido para o sólido. É que, na imensidão e solidão da caatinga iluminada por aquela lua belíssima, ao passarmos a cueca apressadamente no traseiro, ela não dera conta do recado e o “produto” houvera vazado, em profusão, para a mão e adjacências.

Nunca antes havíamos passado por algo semelhante, por situação tão constrangedora e vexatória. Na verdade, naquele momento a vontade era de morrer, sumir, meter-se em algum buraco, desaparecer do mapa, escafeder-se, se autotransportar para o Japão, China, um lugar qualquer longe, bem longe dali, do outro lado do mundo. Uma tragédia. Humilhação pra você nunca mais esquecer.

Pra completar, quando tentamos dá um passo à frente, agora, sim, sentimos a bermuda um tanto quanto apertada, muito presa ao corpo, obstando estranhamente nossa locomoção; é que ela simplesmente houvera “pregado” no traseiro, tal a quantidade de merda e a extensão da área em que se propagara.

Resultado ??? A vergonha foi tão grande que ficamos “baratinados”, perdemos a noção do tempo, da razão, do espaço e do ridículo, e sequer conseguimos atinar que na Rodoviária tinha um banheiro onde poderíamos fazer uma “meia-sola” (mini-banho) para nos livrarmos “daquilo”.

E assim, como nenhum taxista compreensivelmente nos aceitou como passageiro, tivemos que fazer o razoável percurso do Bairro de Fátima até o apartamento, no Centro da cidade, no “pé-dois”, sol a pino, cantando amor febril e sob os olhares desdenhosos dos transeuntes, que cortavam caminho, tratavam de passar por longe daquele “lixo-humano” e sua estranha coreografia. É que nos debatíamos com moscas, um exército de dezenas de moscas, a nos perseguir insistentemente; a fedentina era tão grande, o odor à nossa volta tão insuportável, até para a mais das insensíveis narinas, que poderíamos e merecíamos ser cognominados como uma “fossa ambulante”.

Quanto à colega Julieta, passou um certo tempo amuada, cabreira, chateada, sem querer papo nenhum, intrigada mesmo, pelo que era considerou falta de respeito e consideração. Hoje, casada, mãe de filhos, reside em Mossoró. Nas suas raras incursões à cidade de Fortaleza, nas vezes em que a encontramos, nos saúda efusiva e festivamente, embora um tanto quanto sui generis, diferente, inusual, esquisito até: “Diga lá... seu cagão”. E haja risadas, muitas risadas.

Coisas da vida...

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

MALUF E O VELHO PADRE

O octogenário padre brasileiro, que durante anos a fio tinha trabalhado fielmente e com afinco junto ao povo africano na difusão da palavra do Senhor, voltara debilitado ao Brasil (contraíra o vírus ébola) e, agora, doente e moribundo, internado no Hospital Geral de Brasília, é a notícia e manchete midiática da hora.


Em estado terminal, já nos últimos suspiros ele faz um sinal à enfermeira, que se aproxima. - Sim, senhor padre, o que deseja ? - Eu queria ter a oportunidade de conversar com quatro proeminentes políticos brasileiros, antes de partir, sussurrou o velho Padre, ditando-lhe os nomes. - Acalme-se, verei o que posso fazer, respondeu a enfermeira. De imediato, a Direção do hospital entra em contacto com o Congresso Nacional e logo recebe a boa notícia: todos, na condição de católicos, embora não praticantes, faziam questão de cancelar os compromissos do dia, pois não poderiam perder a oportunidade de visitar o velho Padre, moribundo.

A caminho do hospital, na ampla limusine de um deles, Paulo Maluf confidencia pra Jader Barbalho, Renan Calheiros e José Agripino: - Eu não sei porque é que o velho Padre nos quer ver, mas certamente, dado o seu prestígio internacional e sua popularidade junto aos pobres deste país, isso vai ajudar, e muito, a melhorar a nossa imagem perante a Igreja e ao próprio povo, assim como repercutirá internacionalmente, o que é sempre muito bom. Todos concordaram: realmente, ali estava uma grande e rara oportunidade para eles aparecerem e, tanto é verdade, que até fora enviado um comunicado oficial urgente à imprensa, detalhando a hora e o local da visita.

Quando ao “quarto” os “quatro” chegaram, com toda a mídia presente (rádios, jornais, TV, Internet, etc) o velho Padre pediu-lhes para dele se acercarem e, pousando sua mão direita sobre as mãos de Jader Barbalho e Paulo Maluf, e a esquerda sobre as mãos de Renan Calheiros e José Agripíno, agradeceu-lhes aquele gesto magnânimo, caridoso e cristão.

Houve um respeitoso silêncio, enquanto câmaras foram estrategicamente direcionadas aos cinco, já que repórteres televisivos transmitiriam ao vivo e a cores, em horário nobre, para todo o país, aquele grave momento; para tanto, aproximaram seus sensíveis microfones para, quem sabe, captar aquelas que seriam as últimas palavras daquele santo homem, que estranhamente, apesar de muito debilitado, apresentava-se com um ar de pureza e serenidade no semblante.

Então, Paulo Maluf, na condição de porta-voz dos demais (fazendo pose para as câmaras e imprimindo a devida impostação à voz), perguntou-lhe, contrito: -Santo Padre, desculpe a curiosidade, mas porque é que fomos nós – eu, Jáder, Renan e Agripino - os escolhidos, entre tantas pessoas ilustres das que compõem o nosso glorioso Congresso Nacional, para estar ao seu lado, neste momento tão especial ?

O velho Padre, com um sorriso angelical no rosto, serenamente afirmou: -Meus filhos, como vocês são testemunhas, sempre, em toda a minha vida, procurei ter como modelo e seguir à risca, o "Pai Celestial", Nosso Senhor Jesus Cristo. -Amém, sussurraram, os quatro, em uníssono. E aí, o velho Padre fuzilou, contundentemente:

ENTÃO...COMO “ÊLE” MORREU ENTRE LADRÕES, EU QUERIA PRA MIM O MESMO”.

Ato seguinte, "bateu as botas"... sorrindo.

(Autor desconhecido)

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

"CALDO DE BILA" - José Nilton Mariano Saraiva

Independentemente da raça, cor, sexo, religião, ideologia, credo, preferência clubística ou política, os milhões de adeptos de uma “geladinha” (cerveja) ou da “marvada” (cachaça), detêm a exclusividade de uma certeza: dia seguinte à farra homérica, quando se excedem no consumo e acordam com aquele terrível gosto de “cabo de guarda-chuva” na boca, nada mais apropriado pra curar a “ressaca braba” (que às vezes dá vontade até de morrer), do que “forrar o estômago” com um revigorante e bendito caldo (de mocotó, carne moída ou costela de boi), no capricho e tinindo de quente, capaz não só de matar todos os vermes que “encontrar na descida”, como também “levantar ou por de pé até defunto”.

Mas... há que se ter cuidado com os “caldos da vida”. Sim, porque existem duas espécies de caldo: 1) o “caldo verdadeiro”, original, genuíno, que é aquele bem preparado, repleto de temperos e condimentos, capazes de lhe dar cheiro, sabor e “sustância”, e ainda operar o milagre de fazer seu usuário “renascer” das cinzas, a ponto de, sob o pretexto de “lavar o peritônio”, tirar o gosto ali mesmo com uma outra geladérrima, recomeçando a farra; e, 2) o “outro caldo”, o caldo falso, o caldo de araque, que é aquele que é só uma espécie de água morna, desprovido de temperos e condimentos, sem gosto, sem cheiro, sem poder revigorante e, enfim, sem nenhuma serventia, capaz até de “bater e voltar”, ou seja, de fazer com que o seu usuário “bote os bofes pra fora”, na hora. Esse, por suas características peculiares, findou sendo designado pelos biriteiros da vida com a alcunha de “caldo de bila” (portanto, quando você ouvir a expressão “caldo de bila”, lembre-se de que é algo fraco, inútil, sem serventia).

E a “expressão” pegou de uma maneira tal, foi tão bem assimilada por gregos e troianos, que quando queremos manifestar nosso descontentamento com algo ou alguém que não corresponde às nossas expectativas, em qualquer competição ou atividade, imediatamente professamos: é “mais fraco que caldo de bila”.

Tomemos como exemplo a Fórmula 1, um esporte por demais admirado no mundo todo e que, para nós brasileiros, num determinado momento da história, foi motivo de orgulho e respeito, quando tínhamos a nos representar nos mais diferentes autódromos dos quatro cantos do planeta os Emerson Fittipaldi, Nélson Piquet e Ayrton Senna da vida.
Afinal, quem não lembra das manhãs de domingo em que renunciávamos à praia, clubes, açudes, cinemas ou um outro divertimento qualquer, só pra ficar por duas horas à frente da telinha, beliscando uma cervejota com tira-gosto de panelada e vibrando com o “pé-pesado” ou as ultrapassagens sensacionais dos nossos “homens voadores”, campeões mundiais em seguidas temporadas ??? Quem não lembra dos pegas fantásticos e espetaculares entre Fittapaldi X Jack Stuart, Piquet X Mansel, Senna X Prost, Senna X Piquet, dentre outros ???

Foi então que o destino nos pregou aquela peça terrível, aquele momento dantesco, nos levando prematuramente o Ayrton Senna, numa calma manhã de domingo, durante uma corrida aparentemente tranquila, na Itália, após a quebra da barra de direção de seu carro, a mais de 200 quilômetros por hora.

Imediatamente a TV Globo, em razão principalmente dos milhões de dólares propiciados pela exclusividade da transmissão de cada corrida, e temendo a perda dos exuberantes patrocínios, tratou de “fabricar” da noite pro dia um substituto para o Senna. E como não havia muitas opções naquele momento, literalmente foi “decretado” pela cúpula da Globo e nos imposto goela abaixo, que um jovem piloto paulista, novato na Fórmula 1, seria o novo “ídolo” da torcida brasileira. Foi assim que tomamos conhecimento da existência de Rubens Barrichello, logo batizado pelo chefão de esportes da emissora (Galvão Bueno) de “Rubinho” (certamente que numa tentativa de torná-lo mais “palatável” ante os aficionados da categoria).

Daí pra frente todos nós sabemos a história de cór e salteado: apesar do hercúleo esforço da Globo em alavancá-lo, do generoso espaço lhe disponibilizado, de lhe arranjarem inclusive um lugar na disputadíssima e então imbatível Ferrari (à época detentora dos mais possantes e velozes carros da categoria), o que se via nas pistas era um piloto atabalhoado, lento, medroso, excessivamente burocrático, sem qualquer pegada, além de potencial e exímio “quebrador” de carros, os quais não conseguia “ajustar” nunca (quantas vezes vimos o tal “Rubinho” em desabalada carreira durante as corridas - SÓ QUE A PÉ E NA CONTRAMÃO - em busca do carro reserva ???).

Sem carisma, desprovido de simpatia, sempre com uma desculpa esfarrapada para os recorrentes fracassos nas pistas, inventor de uma comemoração pra lá de ridícula (uma tal de “sambadinha”) quando ocasionalmente ganhava alguma corrida, Barrichello aos poucos foi se eclipsando, sumindo, escafedendo-se.

Na fase crepuscular da carreira, competindo por uma equipe de nível médio (Willians), Barrichello ainda assim conseguiu a proeza de fazer com que a Globo optasse por uma estranha e incrível “inversão de valores”: é que, à falta de resultados (quase sempre ficava lá na rabeira, quando não quebrava), o locutor global tratava de potencializar o fato de “Rubinho” às vezes ficar entre os 10 que obtiveram melhor classificação nos treinos, além de insistir e persistir em nos informar ser ele o piloto que disputou mais de trezentas (300) corridas de Fórmula 1 (olvidando, no entanto e propositadamente, de nos cientificar dos pífios resultados ou da relação entre o número de vitórias obtidas e os grandes prêmios disputados).

Por essa e outras é que poderíamos associar Rubens Barrichello ao nosso famoso “caldo de bila”: não fede, não cheira, não tem gosto, não propicia qualquer serventia ou bem-estar.

 

ALERTA


TOMEM MUITO CUIDADO. BRASÍLIA COMEÇA A SE 

ESVAZIAR. ESSA É A SEMANA DO INDULTO DE NATAL 

E TEREMOS MAIS DE 500 DEPUTADOS E 81 SENADORES

À SOLTA PELO PAÍS. NÃO SAIAM ÀS RUAS E 

TRANQUEM BEM SUAS PORTAS E JANELAS.


(COMPARTILHEM PARA QUE SE TODOS SE PROTEJAM)